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sábado, 2 de fevereiro de 2019

1 EM CADA 5 PORTUGUESES INCAPAZES DE MANTER AS SUAS CASAS AQUECIDAS


Em 2017, de acordo o Inquérito às Condições de Vida e Rendimento Europeu (EU-SILC), publicado pelo Eurostat no dia 31-01-2019, 41 dos cerca de 512,6 milhões de habitantes (8%) da União Europeia não tinha capacidade para manter a sua casa aquecida suficientemente, variando entre os 37% da Bulgária e os cerca de 2% do Luxemburgo, da Finlândia ou da Holanda. (aqui)
EU-SILC 2017
No caso Português em 2017 o país situava-se na 5.ª posição entre os países em que um maior número de cidadãos não tinha capacidade para manter a sua casa aquecida suficientemente, com cerca de 20.4% das pessoas (1 em cada 5 pessoas) a viver em agregados familiares sujeitos a pobreza energética (famílias que têm de consagrar mais de 10% dos seus rendimentos à eletricidade e ao aquecimento, definição da OMS). Resultado que representa uma melhoria de cerca de 2.1% em comparação com 2016 confirmando os progressos verificados nos ùltimos 12 anos.
De acordo com a evidência publicada (aqui) são os mais pobres e em particular os mais velhos (especialmente os que têm idade superior a 85 anos) que são os mais propensos a terem em simultâneo as casas mais frias e húmidas e a menor capacidade para as manterem aquecidas, gerando condições propícias ao agravamento da sua condição de saúde, circunstâncias que no caso português tem contribuido para o excesso de mortalidade verificado durante os meses de Inverno, conhecido como “paradoxo da mortalidade de inverno” uma vez que é o exemplo do país que apesar de ter um clima ameno apresenta uma maior variação sazonal de mortalidade sendo apontado como um paradoxo.

Portugal necessita que as autoridades e em particular as de saúde ao invés de centrarem apenas as suas prioridades em torno da vacinação antigripal e do reforço do atendimento nos serviços de urgência, desenvolvam ações que permitam conhecer a população em pobreza energética e influenciem as políticas públicas de combate à pobreza energética, enquanto deterimante social de saúde.


terça-feira, 15 de janeiro de 2019

MORRER DE FRIO E DE MÁS CONDIÇÕES HABITACIONAIS - EXCESSO MORTALIDADE NO INVERNO


Em 1949 Vitorino Nemésio no conto “Mau Agoiro” inserto no livro “O Mistério do Paço do Milhafre”, descrevia a casa da Cacena, uma velha e triste mulher, plantada na Canada do Búzio como um casebre que mais parecia um fojo de «bruxas do que tectos de gente baptizada. Se não fosse algum molhe de palha que o Menino Jesus acende, o Inverno era frio como a neve e negro como um tição» o mesmo frio que na “Casa de Hóspedes” de Raul Brandão (1926) era descrito como «o frio dos desgraçados».

Vem isto a propósito da responsabilidade da pobreza energética (quando uma pessoa ou família gasta mais de 10% do seu rendimento para manter a sua habitação numa condição térmica satisfatória, resultando da combinação de 3 fatores: rendimento, eficiência energética e custo da energia) e das condições habitacionais que ainda hoje afetam uma fatia importante da população portuguesa no excesso de mortalidade verificada em Portugal em todos os Invernos, uma espécie de «paradoxo» entre os países de clima temperado que faz com que Portugal apresenta a maior variação sazonal da mortalidade, 28% no trabalho de Healy em 2003 e 25.9% no trabalho de Fowler em 2014.

No caso português este excesso de mortalidade tem quase sempre atribuído à gripe sazonal deixando para segundo plano as outras causas (aqui), ao contrário das evidências descritas no trabalho de 2011 de Marmot e colaboradores “THE HEALTH IMPACTS OF COLD HOMESAND FUEL POVERTY” e no trabalho de 2012 dos investigadores portugueses Almendra et al. “EXCESSO DE MORTALIDADE NO INVERNO NOS PAÍSES DA EUROPA MEDITERRÂNEA” onde os autores reconhecem que o efeito da pobreza energética e das condições habitacionais são relevantes na atribuição do excesso de mortalidade às doenças cardiovasculares.

No trabalho de Marmot o excesso de mortalidade é atribuível em cerca de 40% e em cerca de 30% às doenças respiratórias. Avançando ainda que a saúde mental é afetada negativamente pela pobreza energética e pelas condições habitacionais em todas as idades, existindo no caso das crianças o dobro da probabilidade para as crianças que vivem em casas frias terem mais problemas respiratórios e que os adolescentes que vivem em casas frias apresentam maior risco para problemas de saúde mental dos que vivem em casa aquecidas, na proporção de 1 para 4 contra 1 para 20.

No caso do trabalho de Almendra et al, verificou-se uma maior taxa de incidência de enfarte agudo do miocárdio e um excesso de internamentos por enfarte agudo do miocárdio durante os meses de inverno.

Apesar de Portugal ser dos países da Europa com maior excesso de mortalidade durante o inverno as autoridades de saúde continuam a centrar a sua atenção em torno da vacinação antigripal, de conselhos à população para lidar com o frio e ao reforço do atendimento nos serviços de urgência, dando pouca atenção aos seus determinantes sociais.

Portugal precisa antes de mais de políticas que promovam a eficiência térmica, que melhorem as condições habitacionais pondo fim as vulnerabilidades das habitações, medidas em termos europeus pelas falhas nos telhados, humidades nas paredes, nos andares e nas fundações dos edifícios e ainda pelos apodrecimentos nas janelas e nos pisos, necessita de aprofundar as medidas de combate à pobreza energética que o atual governo tem vindo a desenvolver através da atribuição automática da tarifa social da energia a mais de 700.000 consumidores (aqui). Compete às autoridades de saúde desenvolver estudos que permitam conhecer a população em pobreza energética, influenciar legislação apropriada e programas de melhoria das condições habitacionais.

domingo, 6 de agosto de 2017

AS ONDAS DE CALOR MATAM SILENCIOSAMENTE AS PESSOAS INVISÍVEIS E SEM VOZ

Na semana em que o serviço meteorológico europeu (Meteoalarm) alertava para uma onda de calor que afetava em particular a Itália e a região dos Balcãs, colocando dez países em alerta vermelho, devido ao aumento das temperaturas máximas, atribuindo-lhe o nome de Lúcifer, a revista Lancet Planetary Health de Agosto de 2017, publicava o estudo “Increasing risk over time of weather-related hazards to the European population: a data-driven prognostic study” onde se concluía que o aquecimento global poderá provocar na Europa catástrofes relacionadas com o clima que afetarão cerca de 2/3 da população no ano de 2100 e multiplicarão por 50 as mortes verificadas no período de 1981-2100.
Meteoalarm
De acordo com a investigação verificar-se-á um gradiente latitudinal, desfavorável ao Sul da Europa, onde a taxa de mortalidade prematura devido ao clima extremo entre os anos em estudo (2071-2199) poderá atingir cerca de 700 mortes anuais por milhão de habitantes tornando-se no maior fator de risco ambiental para a saúde.
Lancet Planetary Health
O estudo conclui ainda que alguns grupos sociais podem ser mais afetados do que outros, “In particular, the most vulnerable will be elderly people and those with diseases..., as well as the poor...”, confirmando a evidência científica publicada desde que Klinenberg estudou a Onda de Calor que afetou Chicago em 1995 (aqui), descobrindo que as 700 mortes verificadas só podiam ser explicadas através de uma “autópsia social” e concluindo que estas mortes não eram consequência “natural” da Onda de Calor mas eram antes moldadas pelo contexto e pela organização social humana.

De acordo com Klinberg, em Chicago morreram as pessoas idosas, as pobres e as isoladas, concluindo que sem a “desnaturalização” do evento a relação das desigualdades sociais e políticas com a mortalidade observada continuaria escondida.

Ainda recentemente no Arizona (aqui), no passado mês de Junho, as “ ilhas de calor” afetaram em particular os mais vulneráveis, as pessoas idosas, as pessoas doentes, com capacidade fisiológica e comportamental reduzida para termorregulação, e os mais pobres, arredados dos meios tecnológicos que possam mitigar os efeitos das ondas de calor.

Num mundo cada vez mais quente, e em sociedades cada vez "mais frias" que voltam as costa aos mais vulneráveis, o calor é um assassino invisível, que não liquida todos por igual. A história das ondas de calor é uma história económica e social, só compreendida à luz dos determinantes sociais da saúde. 

domingo, 22 de janeiro de 2017

2,2 MILHÕES DE PORTUGUESES INCAPAZES DE MANTER AS SUAS CASAS AQUECIDAS NO INVERNO E ARREFECIDAS NO VERÃO.

Em 1838 Charles Dickens, no seu segundo romance "Oliver Twist”, publicado em fascículos entre 1837-1839, escrito após a aprovação da nova "Lei dos Pobres" em 1834, que considerava a pobreza como uma "falha moral" e obrigava os pobres a ingressar nas "workhouse" para receberem qualquer apoio, retratava a vida de um órfão no submundo da Londres industrial e empobrecida  do século XIX, onde as crianças eram recrutadas e utilizadas no mundo do crime, como mão-de-obra nas fábricas, vivendo em orfanatos ou pelas ruas. Em “Oliver Twist” Dickens descreve a vida dos pobres e as condições em que viviam nos bairros de lata “slums” no Inverno frio da Inglaterra vitoriana.


Anti-Poor Law poster, c. 1837.The National Archives/Heritage-Images
“Bleak, dark, and piercing cold, it was a night for the well-housed and fed to draw round the bright fire, and thank God they were at home; and for the homeless starving wretch to lay him down and die. Many hunger-worn outcasts close their eyes in our bare streets at such times, who, let their crimes have been what they may, can hardly open them in a more bitter world.”

Vem isto a propósito do trabalho realizado pelo CENSE (Centre for Environmental and Sustainability Research) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (aqui)que fez o mapeamento da pobreza energética (de acordo com os critérios da OMS vivem em pobreza energética as famílias que têm de consagrar mais de 10% dos seus rendimentos à eletricidade e ao aquecimento) em Portugal, tendo em conta o clima, a tipologia de construção e a condição socioeconómica para climatização das casas. O estudo que integrou o projeto ClimAdaPT.local, concluiu que, em média, 29 por cento da população não tem capacidade de aquecer as casas no Inverno nem arrefecê-las no Verão, verificando-se os piores resultados nas zonas rurais (Bragança é o concelho do país onde existe mais pobreza energética entre a população com mais de 65 anos, em particular na freguesia de Rio de Onor, onde 75 por cento dos habitantes estão nesta situação) e em bolsas urbanas onde a disponibilidade económica é reduzida.

O estudo citado confirma as investigações anteriormente publicados, revelando uma vez mais que Portugal apresenta indicadores muito baixos no que se refere à qualidade energética das habitações em particular das pessoas mais idosas, ainda recentemente o Inquérito às Condições de Vida e Rendimento, realizado em 2016, revelava que 22,5% das pessoas viviam em agregados sem capacidade para manter a casa adequadamente aquecida adequadamente.(aqui)

De acordo com a evidência publicada são os mais pobres e em particular os mais velhos (especialmente os que têm idade superior a 85 anos) que são os mais propensos a terem em simultâneo as casas mais frias e húmidas e a menor capacidade para as manterem aquecidas, gerando condições propícias ao agravamento da sua condição de saúde. (aqui)

Temperatura interior
Efeito
21.ºC
Temperatura recomendada no interior da habitação
18.ºC

Temperatura interior mínima sem risco para a saúde, embora se possa sentir frio.
<18.º C
A resistência às doenças respiratórias pode estar diminuída
09 - 12 º C
Aumento da pressão arterial e do risco cardiovascular
5.ºC
Risco elevado de hipotermia

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

TARIFA SOCIAL DE ELETRICIDADE - UM EXEMPLO DE "SAÚDE EM TODAS AS POLÍTICAS

O Orçamento de Estado português para 2016 hoje aprovado, na generalidade, na Assembleia República prevê que um milhão de portugueses vão passar a pagar tarifa social de eletricidade, contra os atuais 110.000 beneficiários (aqui).

Portas do Ródão - Tejo - Portugal

Num país em que 1 em cada 4 pessoas (24%) vivia em Portugal em agregados familiares sem capacidade para manter a casa aquecida adequadamente – pobreza energética (aqui) (dados de 2015, de acordo o Inquérito às Condições de Vida e Rendimento, realizado pelo INE) esta medida é um bom exemplo da “Saúde em Todas as Políticas” (aqui) (aqui)


De acordo com a evidência publicada são os mais pobres e em particular os mais velhos (especialmente os que têm idade superior a 85 anos) que são os mais propensos a terem em simultâneo as casas mais frias e húmidas e a menor capacidades para as manterem aquecidas, gerando condições propícias ao agravamento da sua condição de saúde.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

2,4 MILHÕES DE PORTUGUESES INCAPAZES DE MANTER AS SUAS CASAS AQUECIDAS - SAÚDE E POBREZA ENERGÉTICA

Em 2015, de acordo o Inquérito às Condições de Vida e Rendimento, realizado pelo INE, 1 em cada 4 pessoas (24%) vivia em Portugal em agregados familiares sem capacidade para manter a casa aquecida adequadamente. (Aqui) 

Estes 2,4 milhões de portugueses fazem parte dos 50 a 125 milhões de cidadãos da União Europeia que vivem em pobreza energética. (famílias que têm de consagrar mais de 10% dos seus rendimentos à eletricidade e ao aquecimento, definição da OMS), ficando expostos aos efeitos do frio sobre a saúde. (Aqui)



De acordo com a evidência publicada são os mais pobres e em particular os mais velhos (especialmente os que têm idade superior a 85 anos) que são os mais propensos a terem em simultâneo as casas mais frias e húmidas e a menor capacidades para as manterem aquecidas, gerando condições propícias ao agravamento da sua condição de saúde. (Aqui)

              EFEITOS DA TEMPERATURA SOBRE A SAÚDE 
Temperatura interior
Efeito
21  ̊ C
Temperatura recomendada no interior da habitação
18  ̊ C
Temperatura interior mínima sem risco para a saúde, embora se possa sentir frio.
Abaixo de 16  ̊ C
A resistência às doenças respiratórias pode estar diminuída
9 – 12  ̊ C
Aumento da pressão arterial e do risco cardiovascular
5  ̊ C
Risco elevado de hipotermia




Em Portugal esta situação atinge proporções de grande dimensão uma vez que para além de mais de 2,4 milhões portugueses viverem em pobreza energética, mais de um milhão e duzentos mil idosos vivem sós ou em companhia de outros idosos, cerca 20% dos idosos vivem sozinhos (400 964) e cerca de 40% vivem com outros idosos. Em 2014, 49% dos idosos tinham 75 e mais anos. (Aqui)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

INVERNO - MÁS CONDIÇÕES HABITACIONAIS - POBREZA ENERGÉTICA - A CAUSA DAS CAUSAS



Em 1853 Charles Dickens, escrevia em " Bleak House", com o título em português "A Casa Abandonada" edição de 1964 de Romano Torres a propósito das condições de vida nos "slums" do Reino Unido do século XIX:
“Jo lives—that is to say, Jo has not yet died—in a ruinous place, known to the like of him by the name of Tom-all-Alone. It is a black, dilapidated street, avoided by all decent people…Now, these tumbling tenements contain, by night, a swarm of misery…As, on the ruined human wretch, vermin parasites appear, so, these ruined shelters have bred a crowd of foul existence that crawls in and out of gaps in walls and boards; and coils itself to sleep, in maggot numbers, where the rain drips in; and comes and goes, fetching and carrying fever…”
Em Portugal, o médico Ricardo Jorge escrevia em 1899, acerca das condições de vida nas "Ilhas" da cidade do Porto, citado aqui:
“renques de cubículos, às vezes sobrepostos em coxias de travesso. Este âmbito, onde se empilham camadas de gente, é por via de regra um antro de imundíce; e as casinhas em certas ilhas, dessoalhadas e miseráveis, pouco acima estão da toca lôbrega dum trogolita. (...) São o acoito das classes operárias e indigentes que mercê dum aluguer usurário, pagam o seu direito de residência a preço mais subido do que as classes remediadas. Há no Porto 1048 ilhas com 11 129 casas, o que dá uma média de 10,6 casas por ilha. São pois 11 129 fogos de residência, o que corresponde aproximadamente a perto de 50 mil moradores (...) Vê-se que quase metade da gente do Porto mora e acama-se nas ilhas, gerando uma acumulação insalubérrima”

Vem isto a propósito das condições habitacionais que ainda hoje afetam os mais desfavorecidos em Portugal, sobretudo nas zonas urbanas das cidades do Porto e de Lisboa, e do "paradoxo da mortalidade de inverno" nos países de clima temperado como Portugal. De acordo com o trabalho de Raquel Nunes, (aqui) Portugal apresenta indicadores muito baixos no que se refere à qualidade energética das habitações em particular das pessoas mais idosas, ainda recentemente o Inquérito às Condições de Vida e Rendimento, realizado em 2015, revelava que 1 em cada 4 pessoas (24%) vive em agregados familiares sem capacidade para manter a casa aquecida adequadamente.

Com o aproximar do Inverno e o agravamento previsível das condições climatéricas não serão surpresa o agravamento das condições de saúde de uma parte significativa da população.
Necessitamos neste novo ciclo político que as autoridades de saúde pública assumam a sua responsabilidade para mobilizar as políticas públicas para o combate efetivo " A CAUSA DAS CAUSAS" definidas por Rose " Os determinantes da exposição a estas infeções, à má dieta, e a outras experiências não saudáveis. Estas são matéria de investigação social, económica e política"
BLEAK HOUSE















sábado, 5 de dezembro de 2015

EXCESSO DE MORTALIDADE NO INVERNO - GRIPE OU POBREZA ENERGÉTICA

No passado dia 28 de Outubro o Instituto Nacional de Saúde, Ricardo Jorge, dava a conhecer os resultados reportados pelos países que participam na rede EuroMOMO (Rede European Monitoring Excess Mortality for Public Health Action), durante o inverno de 2015, que demonstraram um excesso de mortalidade, na população com 65 ou mais anos, em todos os países europeus que participam nesta rede, com exceção da Estónia e da Finlândia, estando Portugal entre os países mais atingidos, apontando as conclusões desse trabalho para que o excesso de mortalidade tenha ocorrido em simultâneo com a epidemia de gripe sazonal e um período de vagas de frio extremo. Conclusões que estão em linha com as posições públicas assumidas pelas autoridades portuguesas de saúde pública, Direção Geral de Saúde, que atribuiu o excesso de mortalidade no Inverno de 2015 à gripe, às doenças relacionadas com o frio e ao crescimento da população idosa e das suas próprias patologias.
Será esta a explicação, apenas uma parte da explicação, e, que peso terá no excesso de mortalidade ocorrida no Inverno?


% of households unable to afford to keep their home adequately warm
Constantino Sakellarides, emérito médico de saúde pública, põe o “dedo na ferida” em declarações ao jornal “O Público” (aqui) a quando da apresentação do estudo realizado para OMS Europa “O impacto da crise financeira no sistema de saúde e na saúde em Portugal”, cito “ Nos primeiros meses de 2012, um excesso de mortalidade associado à gripe e ao frio foi reportado em Portugal, tal como em muitos outros países europeus em pessoas com mais de 65 anos. No entanto, um excesso de mortalidade nas faixas etárias entre os 15 e os 64 anos apenas ocorreu em Portugal e em Espanha… «Como se explica esta diferença entre países? … Portugal tem uma das mais baixas capacidades de aquecimento das casas durante o Inverno no conjunto dos países europeus, o que pode ter influência na mortalidade”, é que há muito que Portugal apresenta excesso de mortalidade no inverno, sendo apontado como um paradoxo, uma vez que é o exemplo do país com um clima ameno no inverno que apresenta a maior variação sazonal da mortalidade 28% no trabalho de Healy em 2003 e 25.9% no trabalho de Fowler em 2014. 


Map of 9-year country-level EWDI in 31 European countries, grouped by quintiles of equal count.
O "paradoxo da mortalidade de inverno" explica-se afinal pela pobreza energética determinada por “baixos rendimentos, custos elevados de energia e falta de eficiência energética nas habitações”.
De acordo com o trabalho de Raquel Nunes, Portugal apresenta indicadores muito baixos no que se refere à qualidade energética das habitações, “ casas com paredes duplas (6%), isolamento do telhado (6%) e vidros duplos (3%) ” e uma elevada incapacidade para manter as casas aquecidas entre os agregados familiares com um adulto com mais de 65 anos, o que mostra que as pessoas idosas em Portugal estão em maior risco de sofrer os efeitos de viver em casas frias (OMS 2012).

De acordo com os estudos publicados (aqui) (aqui)as pessoas com menos rendimento, têm mais propensão a estar em "pobreza energética" ficando mais expostas a problemas de saúde, incluindo problemas circulatórios, respiratórios e a uma menor qualidade da saúde mental, de acordo com estudos ingleses “10% of excess winter deaths are directly attributable to fuel poverty and a fifth of excess winter deaths are attributable to the coldest quarter of homes”. A pobreza energética também pode afetar os determinantes mais vastos da saúde, tais como o desempenho escolar entre crianças e jovens, ou as ausências ao trabalho.

Portugal necessita que as autoridades de saúde ao invés de centrarem apenas as suas prioridades em torno da vacinação antigripal e do reforço do atendimento nos serviços de urgência, desenvolvam estudos que permitam conhecer a população em pobreza energética e influenciem políticas de combate à pobreza energética.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

RECESSÃO ECONÓMICA, MEDIDAS DE AUSTERIDADE E EFEITOS SOBRE SAÚDE - O CASO DE LONDRES

O Instituto de Equidade em Saúde (UCL INSTITUTE OF HEALTH EQUITY) num trabalho "The Impact of the Economic Downturn and Policy Changes on Health Inequalities in London" realizado para o Departamento de Saúde Pública da Inglaterra (aqui) e (aqui) sobre os efeitos da crise económica e das medidas de austeridade tomadas sobre o bem estar social dos cidadãos da área de Londres, e a forma de reduzir as desigualdades  daí resultantes, concluiu que são três as áreas em que mais se farão sentir os efeitos da crise e da recessão económica: emprego, rendimento e habitação.


Michael Marmot
No que se refere ao emprego, o estudo liderado pelo Professor Michael Marmot, concluiu que o desemprego afetou sobretudo os jovens de menos de 25 anos e em particular os que residiam nas áreas mais deprimidas de Londres, fator encarado com preocupação, uma vez que o desemprego jovem tem um efeito negativo sobre as futuras oportunidades de emprego e os resultados obtidos ao longo da vida. Trabalhar é  uma forte protecção para a saúde, em especial quando o trabalho é de "boa qualidade. " Being in work is mainly protective of health when it is good quality work, which gives employees some control over their work, rewards achievements, is safe and provides a decent standard of living. Individuals who remain in the workplace during an economic downturn may be subject to more psychosocial stress from increased uncertainties surrounding job security and the likelihood of redundancy."

A crise económica e o aumento do desemprego, provocou uma diminuição do rendimento de muitos cidadãos da grande Londres, aumentando a taxa de pobreza (Londres é uma das regiões do Reino Unido com maior taxa de pobreza). Os autores chamam à atenção para o fato de que as crianças nascidas na pobreza apresentarem maior risco de desenvolverem, doença física e mental, problemas sociais e de desenvolvimento no imediato e ao longo da vida.  Muitos dos que vivem na pobreza vivem em famílias de trabalhadores, onde muitas destas alterações vão provocar uma redução diminuição de rendimento e agravamento das condições de vida.


No que se refere à habitação, foram as famílias com crianças e em particular as que tem maior número de elementos que mais sofreram com redução do subsídio de habitação. Os agregados familiares que viram os seus rendimentos reduzidos tiveram que encontrar novos lugares, provocando movimentos de população dentro de Londres ou para fora de Londres, ou optar por viver em casas sobrelotadas.

O Instituto de Equidade em Saúde (UCL INSTITUTE OF HEALTH EQUITY) chama à atenção das autoridades para o potencial aumento das desigualdades em saúde, para o previsível aumento dos problemas de saúde mental, incluindo depressão, suicídios e tentativas de suicídio,  para níveis mais baixos de bem-estar social com previsível aumento da violência doméstica  (devido ao aumento da pressão sobre as famílias ) e, possivelmente, mais homicídios, para o aumento da tuberculose, do HIV/SIDA e do  aumento da mortalidade por doenças do coração - com início 2-3 anos depois o aumento do desemprego, com efeitos persistindo por 10-15 anos.


Terminando por propor que os governos local e nacional  assegurem serviços públicos dirigidos à infância, medidas que permitam o alívio das famílias com o arrendamento e as despesas de funcionamento, cuidados de saúde de primeira linha e de saúde mental e a atribuição de uma renda mínima que garanta uma vida saudável (Minimum Income for Healthy Living (MIHL).

Nota: Minimum Income for Healthy Living (MIHL), which was recommended in ‘Fair Society, Healthy Lives’ (Marmot Review), published in February 2010, should provide enough money to pay for ‘needs relating to nutrition, physical activity, housing, psychosocial interactions, transport and medical care.