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domingo, 28 de fevereiro de 2021

ATLAS MORTALIDADE ESPANHA 1996-2015 - REVELA DESIGUALDADES GEOGRÁFICAS BAIRRO A BAIRRO

Foi recentemente atualizado o Atlas da Mortalidade em Espanha, uma aplicação disponível na web, que mostra os principais resultados do projeto de investigação MEDEA3, intitulado “Desigualdades socioeconómicas e ambientais na distribuição geográfica da mortalidade em (23) grandes cidades de Espanha entre 1996-2015”.

O novo Atlas da Mortalidade, mais detalhado que os 2 anteriores, mostra profundas desigualdades entre os moradores de uma mesma cidade, às vezes apenas separados por uma rua.

De acordo com os resultados apresentados, verifica-se sempre o mesmo padrão, que corresponde à privação socioeconómica e ao gradiente social.

Assim o risco de morrer pelas 15 causas analisadas: SIDA, cancro do estômago, cancro do cólon e reto, cancro do pulmão, cancro da mama, cancro da próstata, cancro da bexiga, cancro hematológico, Diabetes, Demência, Doença cardíaca isquémica, Doença cerebrovascular, DPOC, Doenças fígado e cirrose, Suicídio e lesões autoinfligidas, Acidentes de tráfego, concentram-se nos bairros mais pobres. Nos homens são mais relevantes o cancro do pulmão, a DPOC e a SIDA, nas mulheres a Diabetes e em ambos os sexos, as doenças do fígado e a cirrose e o cancro do estômago.

Os autores analisaram um milhão de mortes em 26 cidades espanholas entre 1996 e 2015, agrupando as mortes por setores censitários, pequenas áreas onde vivem cerca de 1.500 residentes que votam no mesmo colégio eleitoral. O atlas permite visualizar os efeitos da desigualdade socioeconómica em função dos rendimentos, da habitação, do desemprego e da marginalização social.

Os dados recolhidos através de um índice de privação, confirma o resultado de outros estudos, associando os baixos salários, a habitação e os trabalhos a uma pior alimentação, a uma menor atividade física e um maior consumo de tabaco e álcool.

Efeito da privação na mortalidade por DPOC - Bilbao 

Algumas ruas funcionam como uma fronteira entre dois mundos diferentes, um de cada lado da calçada, confirmando trabalhos anteriores já divulgados. (aqui) (aqui) (aqui)

No passado dia 20 de fevereiro a edição do jornal El País, num extenso trabalho dá a conhecer 10 exemplos de bairros que espelham bem o papel dos determinantes sociais nas desigualdades em saúde (aqui).

Terminamos citando Michael Marmot “Why treat people and send them back to the conditions that make them sick”

sábado, 4 de abril de 2020

2020 - ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA - DESIGUALDADES SOCIAIS NO COMBATE AO #COVID19 E AS CONSEQUÊNCIAS PARA OS TRABALHADORES MAIS POBRES

A medida que o #COVID19 se espalha vêm ao de cima as Desigualdades Sociais e os Determinantes Sociais da Saúde Nas cidades dos EUA, muitos trabalhadores de baixos rendimentos continuam a ter que se movimentar para irem trabalhar, enquanto os 10% mais ricos ficaram mais cedo em casa e continuam a movimentar-se menos de acordo com dados de localização de smartphones analisados pelo The New York Times.

FOTO DE METRO EM DIA DE TRABALHO

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

2020 - OS FACTOS CONTRA A DEMAGOGIA E O POPULISMO


Ao longo dos últimos 4 anos procurámos divulgar e dar a conhecer a “causa das causas”, a olhar para além do nosso alcance e não olhar uma só coisa (aqui). A olharmos (sempre) a relação entre as coisas e nós mesmos para melhor conhecermos os determinantes sociais da saúde e as desigualdades em saúde.

Dito isto, vale a pena relembrar a que quem nos leia que não temos uma visão negativa do mundo, antes pelo contrário, procuramos sustentar o nosso trabalho, num olhar centrado nos factos, numa visão construtiva, contrariando as notícias falsas, a ignorância e uma visão conservadora e irracionalista do mundo, que despreza os factos, incitando ao medo irracional, à desconfiança em relação “aos outros” por terem cultura, hábitos, ou religião diferentes, incitando à xenofobia, ao racismo, ao machismo, que constrói um discurso demagógico a partir de visão etnocentrista e anti-sistema, que as redes sociais amplificam, permitindo dizer as maiores barbaridades sem qualquer comprovação, de forma consequente e sem qualquer responsabilização.

Por tudo isto vale a pena dar a conhecer o trabalho da Fundação Gapminder fundada por Hans Roling em 2005 que tem como missão “Fighting devastating ignorance withfact-based worldviews everyone can understand

Esperança de Vida à Nascença/Produto Interno Bruto ajustado pelas diferenças do poder de compra


Mortalidade Infantil aos 5 anos

domingo, 8 de dezembro de 2019

AS DESIGUALDADES SOCIOECONÓMICAS E DE GÉNERO CONDICIONAM O FINAL DA VIDA, OS RICOS MORREM EM CASA OS POBRES NO HOSPITAL

De acordo com os dados recolhidos pelo Observatório da Morte, entidade criada em 2017 pelo Parlamento da Catalunha (aqui) no âmbito do Observatório do Sistema de Saúde da Catalunha as desigualdades sociais persistem até ao último momento de vida. As inequidades socioeconómicas e as desigualdades de género condicionam não só quando se morre, mas também como e onde falece uma pessoa.

Criado em 2017 por decisão do Parlamento da Catalunha o Observatório da Morte tem como objetivo analisar as circunstâncias em que ocorrem os óbitos da população da Catalunha de forma a fazer propostas que visem melhorar os cuidados às pessoas em fim de vida e a garantir uma morte digna (aqui). 

Assim e de acordo com os dados apresentados publicamente pela direção do Observatório do Sistema de Saúde para além das conhecidas desigualdades de género na esperança média de vida, uma vez que as mulheres tem uma maior esperança de vida à nascença e no número de anos vividos com saúde, uma vez que os homens vivem menos anos, mas esse anos são vividos com mais saúde. (aqui)

Regista-se também uma diferença entre géneros no que se refere ao local da morte, falecendo mais os homens em casa e as mulheres em unidades residenciais para idosos, vulgo Lares, uma vez que as mulheres ao viverem mais anos acabam por terem menos cuidadores e sofrerem mais de demências, situação que implica maior dependência no fim da vida. (aqui)

Também no que se refere às desigualdades sociais verificaram-se diferenças significativas entre os grupos mais favorecidos e menos favorecidos, uma vez que as pessoas mais pobres morrem sobretudo nos Hospitais e as pessoas mais ricas morrem nas suas casas, diferenças que os autores não foram capazes de atribuir a uma causa específica. Colocando como possibilidades a estudar: a capacidade das pessoas mais favorecidas poderem pagar mais cuidados no domicílio ou a sua capacidade para reivindicar mais cuidados domiciliários aos serviços públicos de saúde.(aqui)

Com o objetivo de reduzir as mortes nos Hospitais e também a ajudar a reduzir as desigualdades em saúde verificadas, o Observatório defende a melhoria dos cuidados paliativos quer na sua extensão quer na diminuição da imprevisibilidade dos eventos no final da vida, melhorando o planeamento dos cuidados de modo a que nos últimos dias de vida só ocorram aos serviços de urgência dos Hospitais as situações imprevisíveis, podendo as outras situações serem encaminhas para unidades de internamento em cuidados paliativos se de todo não for possível manter as pessoas nas suas casas ou se as próprias ou as suas famílias ou cuidadores não o desejarem.

domingo, 23 de junho de 2019

CRESCER NA POBREZA E VIVENCIAR ACONTECIMENTOS TRAUMÁTICOS CAUSAM IMPACTO NO DESENVOLVIMENTO DO CÉREBRO E NO COMPORTAMENTO DAS CRIANÇAS E JOVENS


Um estudo publicado na revista “Jama Psychiatry” do passado dia 29 de maio, conduzido por investigadores da Escola Médica Perelman de Filadélfia, Universidade da Pensilvânia e do Children's Hospital of Philadelphia, mostrou que crescer na pobreza e ser vítima de acontecimentos traumáticos stressantes como acidentes graves, homicídios, violência doméstica ou agressões sexuais afeta o desenvolvimento cerebral e o comportamento das crianças e jovens.

Na investigação que deu origem à publicação “ Burden of Environmental Adversity Associated With Psychopathology, Maturation, and Brain Behavior Parameters in Youths” os autores procuraram perceber até que ponto é que a psicopatologia, a neurocognição e os parâmetros cerebrais dos jovens eram afetadas quando estes cresciam mum ambiente adverso que incluí-se o baixo nível socioeconómico e situações que provocassem stress traumático com a psicopatologia, neurocognição e parâmetros cerebrais, para esse fim usaram uma coorte denominada Philadelphia Neurodevelopmental Cohort, composta por 9.498 crianças e jovens entre os 8 e 21 anos recrutados no Children's Hospital of Philadelphia.

Os resultados revelaram que a pobreza estava associada a um pequeno aumento da gravidade dos sintomas psiquiátricos, incluindo o humor/ansiedade, as fobias, os transtornos de conduta, as perturbações de oposição e desafio, os transtornos de défice de atenção com hiperatividade e as psicoses em comparação com as crianças e jovens que não viviam em pobreza. No caso dos eventos traumáticos stressantes a magnitude dos sintomas psiquiátricos foram inesperadamente grandes para os investigadores, estando a associados a transtornos de stres pós-traumático, realçando os autores que a presença de 1 ou 2 eventos traumáticos eram suficientes para o aumento da gravidade dos sintomas psiquiátricos avaliados, em particular no caso do humor/ansiedade e das psicoses.
No caso do funcionamento neurocognitivo, verificou-se que a pobreza estava associada a défices cognitivos moderados a severos, especialmente nas funções executivas (abstracção, flexibilidade mental, atenção e memória operativa) e no raciocínio complexo, enquanto que para os eventos traumáticos foram encontrados défices ligeiros na cognição complexa, mas demonstrando um desempenho de memória ligeiramente melhor.
L´IMMIGRATION PORTUGAISE
Tanto a pobreza como os eventos traumáticos foram associados a alterações da normalidade na anatomia, fisiologia e conectividade do cérebro. As associações com a pobreza foram generalizadas, enquanto que eventos traumáticos foram associadas a diferenças mais centradas nas regiões límbica e fronto-parietal do cérebro, que processam emoções, memória, funções executivas e raciocínio complexo.


Finalmente, o estudo encontrou evidências de que o crescimento num ambiente adverso caracterizado pela pobreza e pelos eventos traumáticos stressantes está associado a um início precoce da puberdade e a uma maturidade física precoce.

Os investigadores verificaram, ainda, que as crianças que tinham sofrido mais eventos traumáticos stressantes tinham características de cérebros adultos, a afetar o seu desenvolvimento, uma vez que a estratificação cuidadosa da conectividade estrutural e funcional do cérebro exige tempo, e a maturidade precoce pode impedir o aprimoramento necessário das suas aptidões.

sábado, 30 de março de 2019

A INFLUÊNCIA DA CLASSE SOCIAL NO ESTADO DE SAÚDE

Um estudo publicado na revista “Scientific Reports”, publicação online de acesso livre da Nature, no âmbito do projeto Europeu Lifepath que tem como objetivo investigar os mecanismos biológicos através dos quais as desigualdades sociais conduzem às desigualdades em saúde, mostrou que as pessoas que pertencem a uma classe social mais desfavorecida têm pior saúde, uma vez que apresentam maiores níveis de inflamação crónica, estando esta associada a problemas de saúde como o cancro, doença cardiovascular e a diabetes.

"O Almoço do Trolha" - Júlio Pomar
Na investigação que deu origem à publicação do artigo "A Comparative Analysis of the Status Anxiety Hypothesis of Socio-economic Inequalities in Health Based on 18,349 individualsin Four Countries and Five Cohort Studies" da autoria de um conjunto de investigadores europeus oriundos do  Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, Portugal, do Imperial College of London, Reino Unido, do Trinity College Dublin, Irlanda, do Hospital Universitário de Lausanne, Suíça e do University College London, Reino Unido, os autores procuraram perceber por um lado, até que ponto as pessoas de classe social mais baixa apresentavam maiores níveis de inflamação e, por outro, se a população que vivia em países onde há maior desigualdade social também apresentava maior inflamação

Para testar estas duas hipóteses, os investigadores usaram dados de 18.400 indivíduos, com idades compreendidas entre os 50 e os 75 anos, de quatro países europeus – Portugal, Irlanda, Reino Unido e Suíça. Os indivíduos integravam cinco coortes (estudos longitudinais) dos referidos países: ELSA e Whitehall II (Reino Unido), TILDA (Irlanda), EPIPorto (Portugal) e SKIPOGH (Suíça), tendo sido considerados no estudo vários indicadores: Diabetes, Hipertensão Arterial, Fumar, Índice Massa Corporal, Marcador Inflamatório (Proteína C Reativa - PCR) Posição socioeconómica, Idade e Género. 

Os resultados mostram que os indivíduos situados nos grupos socioeconómicos mais baixos (a classe social foi harmonizada de acordo com a Classificação Socioeconómica Europeia (ESeC) e a Classificação Internacional Padrão da Educação (ISCED 2011) têm maiores níveis médios de inflamção(PCR),  e que quanto mais desigual é o país maior é o nível de inflamação dos indivíduos e mais pronunciado é o gradiente socioeconómico da inflamação, existindo uma diferença significativa entre os níveis de proteína C-reativa das classes mais desfavorecidas ("pobres") e mais favorecidas socioeconomicamente ("ricos").

O estudo confirma que a classe social é um fator de risco para saúde, não só do ponto de vista absoluto como também do ponto de vista relativo tendo em conta o gradiente social, definido como “o fenómeno pelo qual as pessoas que são menos favorecidos em termos de posição socioeconómica têm pior saúde (e vida mais curtas) do que aqueles que são mais favorecidos”.

A investigação revela ainda que Portugal é o país onde os níveis de inflamação crónica na população são mais elevados e onde existe uma diferença mais marcada entre os grupos socioeconomicamente mais desfavorecidos (pobres) e os mais favorecidos (ricos), resultado que está em linha com o facto de Portugal ser o país mais desigual em termos sociais entre os países estudados, Irlanda, Reino Unido e Suíça.

domingo, 17 de março de 2019

MAIO 2019 - MICHAEL MARMOT EM PORTUGAL PARA FALAR DOS DETERMINANTES SOCIAIS SA SAÚDE MENTAL INFANTOJUVENIL


No próximo mês de Maio o Professor Michael Marmot, a principal autoridade mundial na área dos Determinantes Sociais da Saúde estará em Portugal para abordar os Determinantes Sociais da Saúde Mental Infantojuvenil a convite da Associação Portuguesa de Psiquiatria da Infância e da Adolescência (APPIA) durante o XXX Encontro Nacional da Associação Portuguesa que se realizará em Guimarães de 15 a 18 de maio. (aqui)

O professor Michael Marmot, diretor do Instituto de Equidade em Saúde do University College London, professor de epidemiologia, investigador principal do estudo Whitehall, tem vindo a desenvolver ao longo dos últimos 35 anos importante investigação nas áreas das desigualdades em saúde e nos determinantes sociais da saúde.


Resultado de imagem para mirar a saude michael marmotPresidente da Comissão para os Determinantes Sociais da Saúde, criada em 2005 por iniciativa do secretário-geral da Organização Mundial da Saúde JW Lee, que apresentou em 2008 o relatório “Redução das desigualdades no período de uma geração: Igualdade na saúde através da ação sobre os seus determinantes sociais” (aqui), ex-presidente da Associação Médica Mundial de 2015 a 2016 (aqui), preside atualmente à Comissão para o Estudo da Equidade e das Desigualdades em Saúdedas Américas criada em 2015 pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS / OMS)(aqui), esteve em Portugal em 2012 a convite da Universidade do Algarve e do Instituto Nacional de Saúde (aqui) e em 2018 a convite da Fundação Caloust Gulbenkian (aqui).

Michael Marmot orientará um workshop pré-encontro no dia 14 de Maio denominado “Give every child the best start in life – Acting upon the social determinants of mental health” e proferirá a Conferência de Abertura intitulada “Social Determinants, Social Justice, and Health Equity”.

quarta-feira, 6 de março de 2019

2019 - EM ITÁLIA VIVE-SE MENOS NO SUL QUE NO NORTE E EM TODA A ITÁLIA OS HOMENS QUE ESTUDARAM MENOS MORREM 3 ANOS MAIS CEDO. Atlas italiano das desigualdades de mortalidade por nível de educação


No passado dia 27 de fevereiro foi apresentado em Roma, pelo professor Michael Marmot o “ATLAS ITALIANO DAS DESIGUALDADES DE MORTALIDADE POR NÍVEL DE EDUCAÇÃO” na presença da ministra da saúde de Itália, Giulia Grillo.

O primeiro "Atlas italiano das desigualdades de mortalidade por nível de educação" foi produzido pelo Instituto Nacional para a Promoção da Saúde dos Migrantes e ao Combate das Doenças da Pobreza (aqui) e pelo Instituto nacional de Estatística (aqui) tendo como objetivos avaliar: as diferenças geográficas e socioeconómicas na mortalidade e na esperança de vida à nascença e a proporção de mortalidade na população atribuível a um nível médio-baixo de escolaridade através da utilização de mapas e indicadores, através de um estudo longitudinal da população recenseada no Censo italiano de 2011.

O estudo utilizou uma base de dados do Instituto Nacional de Estatística Italiano desenvolvida através da ligação do Censo 2011 ao Registo Nacional Italiano de Causas de Morte (2012-2014) para 35 grupos de causas de morte, cruzando-os com a idade, sexo, residência e nível de escolaridade. A esperança de vida à nascença foi calculada por sexo, região e nível de escolaridade, para a população dos 30 aos 89 anos, por sexo, foram criados mapas geográficos por causa de morte, anos de vida perdidos, distribuídas por quintis utilizando a razão de mortalidade padronizada para a idade e nível de escolaridade. (aqui)

Os principais resultados mostram que na Itália, as desigualdades sociais estão presentes em todas as regiões e dentro das próprias regiões. No que se refere à esperança de vida à nascença existe uma desvantagem clara entre as regiões do norte e do sul, independente do nível de escolaridade, desfavoráveis num 1 ano às populações do sul, atingindo na Campânia uma desvantagem de dois anos em comparação com as regiões do centro e do norte, tanto para os homens e para as mulheres.



Mas se tivermos em conta a escolaridade, os resultados mostram que as pessoas com baixa qualificação educacional apresentam uma probabilidade de morte prematura de 35% para os homens e 24% para as mulheres. A parcela de mortalidade atribuível às condições socioeconómicas e de vida associadas ao baixo nível de escolaridade é de 18% para os homens e de 13% para as mulheres.

Finalmente e no que se refere às principais causas de morte, as diferenças geográficas são maiores para as doenças cardiovasculares, para as respiratórias e para os acidentes, e menores para o cancro. O estudo mostrou pela primeira vez em Itália que existe um gradiente de mortalidade Este-Oeste com maior mortalidade no Noroeste, na costa sul do Tirreno por todas as causas, em especial para as doenças cerebrovasculares e tumores como um todo.


No caso da mortalidade por doenças cardiovasculares existe uma diferença clara entre as populações do norte e do sul da Itália, desfavorável às populações das regiões mais pobres do sul, onde em algumas áreas geográficas a mortalidade das pessoas com maior nível de escolaridade é maior do que a dos residentes no norte da Itália com baixo nível de escolaridade. Em contraste e no que se refere à mortalidade por cancro, a mortalidade cresce de sul para norte não apresentando contudo diferenças tão significativas.



sábado, 2 de fevereiro de 2019

1 EM CADA 5 PORTUGUESES INCAPAZES DE MANTER AS SUAS CASAS AQUECIDAS


Em 2017, de acordo o Inquérito às Condições de Vida e Rendimento Europeu (EU-SILC), publicado pelo Eurostat no dia 31-01-2019, 41 dos cerca de 512,6 milhões de habitantes (8%) da União Europeia não tinha capacidade para manter a sua casa aquecida suficientemente, variando entre os 37% da Bulgária e os cerca de 2% do Luxemburgo, da Finlândia ou da Holanda. (aqui)
EU-SILC 2017
No caso Português em 2017 o país situava-se na 5.ª posição entre os países em que um maior número de cidadãos não tinha capacidade para manter a sua casa aquecida suficientemente, com cerca de 20.4% das pessoas (1 em cada 5 pessoas) a viver em agregados familiares sujeitos a pobreza energética (famílias que têm de consagrar mais de 10% dos seus rendimentos à eletricidade e ao aquecimento, definição da OMS). Resultado que representa uma melhoria de cerca de 2.1% em comparação com 2016 confirmando os progressos verificados nos ùltimos 12 anos.
De acordo com a evidência publicada (aquisão os mais pobres e em particular os mais velhos (especialmente os que têm idade superior a 85 anos) que são os mais propensos a terem em simultâneo as casas mais frias e húmidas e a menor capacidade para as manterem aquecidas, gerando condições propícias ao agravamento da sua condição de saúde, circunstâncias que no caso português tem contribuido para o excesso de mortalidade verificado durante os meses de Inverno, conhecido como “paradoxo da mortalidade de inverno” uma vez que é o exemplo do país que apesar de ter um clima ameno apresenta uma maior variação sazonal de mortalidade sendo apontado como um paradoxo.

Portugal necessita que as autoridades e em particular as de saúde ao invés de centrarem apenas as suas prioridades em torno da vacinação antigripal e do reforço do atendimento nos serviços de urgência, desenvolvam ações que permitam conhecer a população em pobreza energética e influenciem as políticas públicas de combate à pobreza energética, enquanto deterimante social de saúde.


domingo, 20 de janeiro de 2019

"SAÚDE, UMA QUESTÃO DE CLASSE" - OS BAIRROS DE BARRACAS NO PORTUGAL DOS ANOS 60/70


No final dos anos 60 e início dos anos 70 milhares de portugueses viviam em condições habitacionais miseráveis. Em 1970 de acordo com o Censo 1970 os dados oficiais indicavam um total de 31 110 habitações precárias barracas e outros, no território continental. Nesta época, as estatísticas indicavam que, para um total de 2 164 965 alojamentos em Portugal, existia uma percentagem de 64,3% de habitações com energia elétrica, 47,1%, com abastecimento de água e 30% de habitações servidas por rede de esgotos, significando que 29,4% das famílias portuguesas estavam alojadas em condições abaixo dos padrões mínimos, considerando a presença de água, luz e casa de banho.(aqui)
Imagem de "SAÚDE, UMA QUESTÃO DE CLASSE"

Nas áreas metropolitanas do Porto e de Lisboa acumulavam-se milhares de famílias em “ilhas” ou “barracas”. Na área metropolitana de Lisboa a população que vivia nos bairros de barracas situados no limite do concelho de Lisboa, na zona oriental da cidade, na zona da circunvalação Algés-Buraca e nos concelho de Loures, de Oeiras e da Amadora, era constituída na sua maioria por famílias oriundas de concelhos a norte do Tejo, que na sua maioria tinham emigrado para Lisboa para trabalharem na construção civil e na indústria (apenas cerca de 37% dos agregados familiares moradores nestes bairros nasceram em Lisboa). (aqui)(aqui)

Ao longo dos anos 60 e dos primeiros anos da década de 70, o número de bairros de barracas não para de crescer estimando a Polícia Municipal de Lisboa que na cidade cerca de 90.000 pessoas vivem-se em condições precárias. No caso do Bairro Chinês, o maior bairro de barracas de Lisboa, espalhado pela Quinta Marquês de Abrantes e quintas limítrofes na freguesia de Marvila, viviam cerca de 8000 pessoas oriundas dos concelhos de Viseu, Resende e Castro Daire maioritariamente empregues no polo industrial da zona oriental de Lisboa (Fábrica Nacional de Sabões, Fábrica da Borracha, Fábrica dos Fósforos, Petroquímica e armazéns de vinhos de Abel Pereira da Fonseca).

É desta realidade que fala o trabalho “Saúde, uma questão de classe”, disponível nos arquivos da RTP (aqui), das condições habitacionais e sanitárias em que viviam as classes trabalhadoras dos bairros de barracas dos concelhos da Amadora e de Lisboa devastadas pela mortalidade infantil e pela mortalidade por causas evitáveis, de que são exemplo a taxa de mortalidade infantil em 1973, 44.8/1.000 e os 67.6 anos de esperança de vida à nascença.



terça-feira, 15 de janeiro de 2019

MORRER DE FRIO E DE MÁS CONDIÇÕES HABITACIONAIS - EXCESSO MORTALIDADE NO INVERNO


Em 1949 Vitorino Nemésio no conto “Mau Agoiro” inserto no livro “O Mistério do Paço do Milhafre”, descrevia a casa da Cacena, uma velha e triste mulher, plantada na Canada do Búzio como um casebre que mais parecia um fojo de «bruxas do que tectos de gente baptizada. Se não fosse algum molhe de palha que o Menino Jesus acende, o Inverno era frio como a neve e negro como um tição» o mesmo frio que na “Casa de Hóspedes” de Raul Brandão (1926) era descrito como «o frio dos desgraçados».

Vem isto a propósito da responsabilidade da pobreza energética (quando uma pessoa ou família gasta mais de 10% do seu rendimento para manter a sua habitação numa condição térmica satisfatória, resultando da combinação de 3 fatores: rendimento, eficiência energética e custo da energia) e das condições habitacionais que ainda hoje afetam uma fatia importante da população portuguesa no excesso de mortalidade verificada em Portugal em todos os Invernos, uma espécie de «paradoxo» entre os países de clima temperado que faz com que Portugal apresenta a maior variação sazonal da mortalidade, 28% no trabalho de Healy em 2003 e 25.9% no trabalho de Fowler em 2014.

No caso português este excesso de mortalidade tem quase sempre atribuído à gripe sazonal deixando para segundo plano as outras causas (aqui), ao contrário das evidências descritas no trabalho de 2011 de Marmot e colaboradores “THE HEALTH IMPACTS OF COLD HOMESAND FUEL POVERTY” e no trabalho de 2012 dos investigadores portugueses Almendra et al. “EXCESSO DE MORTALIDADE NO INVERNO NOS PAÍSES DA EUROPA MEDITERRÂNEA” onde os autores reconhecem que o efeito da pobreza energética e das condições habitacionais são relevantes na atribuição do excesso de mortalidade às doenças cardiovasculares.

No trabalho de Marmot o excesso de mortalidade é atribuível em cerca de 40% e em cerca de 30% às doenças respiratórias. Avançando ainda que a saúde mental é afetada negativamente pela pobreza energética e pelas condições habitacionais em todas as idades, existindo no caso das crianças o dobro da probabilidade para as crianças que vivem em casas frias terem mais problemas respiratórios e que os adolescentes que vivem em casas frias apresentam maior risco para problemas de saúde mental dos que vivem em casa aquecidas, na proporção de 1 para 4 contra 1 para 20.

No caso do trabalho de Almendra et al, verificou-se uma maior taxa de incidência de enfarte agudo do miocárdio e um excesso de internamentos por enfarte agudo do miocárdio durante os meses de inverno.

Apesar de Portugal ser dos países da Europa com maior excesso de mortalidade durante o inverno as autoridades de saúde continuam a centrar a sua atenção em torno da vacinação antigripal, de conselhos à população para lidar com o frio e ao reforço do atendimento nos serviços de urgência, dando pouca atenção aos seus determinantes sociais.

Portugal precisa antes de mais de políticas que promovam a eficiência térmica, que melhorem as condições habitacionais pondo fim as vulnerabilidades das habitações, medidas em termos europeus pelas falhas nos telhados, humidades nas paredes, nos andares e nas fundações dos edifícios e ainda pelos apodrecimentos nas janelas e nos pisos, necessita de aprofundar as medidas de combate à pobreza energética que o atual governo tem vindo a desenvolver através da atribuição automática da tarifa social da energia a mais de 700.000 consumidores (aqui). Compete às autoridades de saúde desenvolver estudos que permitam conhecer a população em pobreza energética, influenciar legislação apropriada e programas de melhoria das condições habitacionais.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

EM 2017 - MELHORARAM TODOS OS INDICADORES QUE MEDEM A POBREZA, A DESIGUALDADE E EXCLUSÃO SOCIAL


O sítio da internet “Portugal Desigualatualizou recentemente os principais indicadores de desigualdade, pobreza e exclusão social obtidos a partir do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento realizado em 2018, e que incidiu sobre os rendimentos auferidos pelas famílias em 2017, publicado pelo Instituto Nacional de Estatística no dia 30 de Novembro (aqui)(aqui).
No site “Portugal Desigual” o Professor Carlos Farinha Rodrigues, um dos mais importantes especialistas portugueses na em desigualdades e pobreza, escreve que a melhoria de todos os indicadores que medem as desigualdades em 2017 “ … traduzem uma melhoria relevante da condição social do país e traduzem uma redução dos principais indicadores de pobreza, desigualdade e exclusão social. Tal deve-se em grande medida à recuperação económica do país, ao crescimento económico e à queda do desemprego. Mas deve-se igualmente a uma preocupação acrescida das políticas públicas com as questões sociais, com a preocupação de priorizar o crescimento dos rendimentos das famílias de menores rendimentos e ao reforço das políticas sociais expressas, por exemplo, no aumento do salário mínimo ou das prestações sociais direcionadas à população de menores rendimentos.

O Inquérito às Condições de Vida e Rendimento, agora publicado, mostrou que a incidência da pobreza atingiu, em 2017, 17,3% da população total, o valor mais baixo desta taxa desde que o INE a começou a publicar anualmente em 1995, e um ponto percentual (p.p.) abaixo do seu valor em 2016 (18,3%, e, que todos os índices de desigualdade registaram uma diminuição em 2017: o coeficiente de Gini desceu de 33,5% para 32,6% e o indicador que mede a distância dos rendimentos entre os 20% mais ‘ricos’ e os 20% mais ‘pobres’ diminuiu de 5,7 para 5,3

O inquérito mostrou ainda que há menos pessoas em privação material, uma vez que a taxa de privação material severa baixou de 6,9% para 6,0%.

As transferências sociais, nomeadamente as relacionadas com a doença e a incapacidade, a família, o desemprego e a inclusão social, diminuíram o risco de pobreza em 5,4 p.p., sensivelmente o mesmo impacto verificado no ano anterior (5,3 p.p.). Ou seja, sem essas prestações sociais a taxa de risco de pobreza teria sido, em 2017, de 22,7%.



Apesar destas melhorias Portugal continua a ser um dos países com maior pobreza e com maiores níveis de desigualdade na Europa, onde os 10% de portugueses mais pobres ainda ganham 8,9 vezes menos do que os 10% mais ricos e onde 1,7 milhões de portugueses continuavam em risco de pobreza e exclusão social em 2017.

No que se refere à incidência de pobreza segundo a condição de trabalho, os resultados do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento realizado em 2018 mostram que a população empregada em situação de pobreza diminuiu em 2017, fixando-se em 9.7%, enquanto a taxa de pobreza população em situação de desemprego atingiu 45,7% em 2017, refletindo “a permanência de uma proporção tão elevada de ‘working poors” as fragilidades do mercado de trabalho português de acordo com o “Portugal Desigual”

domingo, 2 de dezembro de 2018

ESPERANÇA DE VIDA NOS ESTADOS UNIDOS CAIU PELO 3.º ANO CONSECUTIVO - SOBRETUDO ENTRE A POPULAÇÃO BRANCA


De acordo com os dados publicados no passado dia 29 de novembro pelo Centers for Disease Control and Prevention (CDC) “Mortality in the United States, 2017” (aqui), a esperança de vida nos Estados Unidos (EUA) caiu pelo terceiro ano consecutivo, situando-se em 78.6 anos, a muita distãncia do Canadá 82.3 anos, da Costa Rica 79.8 anos ou de Cuba com 79.7 anos (aqui). Os dados agora publicados referentes a 2017 (78.6) mostram uma diminuição de 1 décima em realação a 2016 (78.7) e confirmam a queda na descida da mortalidade nos EUA, verificada de forma contínua desde 2015.

Esta diminuição da esperança de vida ao nascer deveu-se em grande parte ao aumento da mortalidade de 4.2% por causas externas “unintentional injuries”, de 3.7% para a mortalidade por suicídio, de 5.9% para a mortalidade por gripe e pneumonia, de 2.4% para mortalidade por Diabetes e de 2.3% para a mortalidade por doença de Alzheimer.
O aumento das taxas de mortalidade ajustadas por idade para a população branca (homens e mulheres) não hispânica verificado nos últimos 3 anos, confirmam os confirmam os resultados do estudo publicado em 2015, por Anne Case1 e Angus Deaton“ Rising morbidity and mortality in midlife among white non-Hispanic Americans in the 21st century” (aqui), que tinham mostrado que a taxa de mortalidade entre os brancos americanos dos 45 aos 54 anos, com baixa escolaridade, “White Working Class” tinha aumentado entre 1999 e 2014, uma situação sem paralelo nos países de economia avançada e apenas registada nos EUA a quando da epidemia de VIH/SIDA.
Os autores apontavam como principais causas para esta situação, a privação económica e o stress financeiro da classe trabalhadora branca, provocado pela estagnação salarial verificada desde a década de 70, conjuntamente com a dificuldade lidar com a insegurança e a falta de proteção social na reforma.