Tem
trabalhado em casa, apesar da perda social que considera ser a “invasão do
domicílio pelo espaço laboral”. Lá não encontra ninguém, “nem o vírus”. Entre
as reuniões espelhadas no ecrã do computador, o epidemiologista e professor, de
62 anos, coordena o Conselho Nacional de Saúde, órgão consultivo do Governo na
linha da frente da gestão da crise sanitária, e é presidente do Instituto de
Saúde Pública da Universidade do Porto. Vive agora um dos maiores desafios
profissionais da carreira. Não tem medo, mas respeito suficiente pela ciência
para constatar que se lhe pede muitas vezes o que ela não pode oferecer.
Numa crise de saúde pública como esta, é mais
determinante a mortalidade de um vírus ou a sua propagação?
É uma
discussão interessante, essencialmente filosófica. Tendemos a dar
funcionalidades aos agentes. “O vírus faz isto porque quer aquilo." Mas,
que eu saiba, nunca ninguém falou com ele. Pressupomos, numa lógica darwiniana,
existir um interesse competitivo que leva um agente a não ter qualquer vantagem
em dar cabo dos hospedeiros. Razão pela qual, quando o agente chega, tem uma
virulência maior do que aquela com que vai sobreviver. Por isso, no início, as
pandemias têm um caráter mais grave.
Foi coordenador nacional do combate à sida em
Portugal. Considera este vírus simpático?
A covid-19
tem uma alta capacidade de contágio, transmite-se na ausência de sintomas, há
várias gerações de infeção que se sucedem com relativa rapidez. Não me parece
nada simpático. Depois de conhecido, o VIH é potencialmente mais simpático, se
pensarmos que temos formas de acabar com as infeções transmitidas de mãe para
filho e através do sangue. Só não controlamos melhor as infeções transmitidas
sexualmente porque não gostamos de usar preservativo. Portanto, o coronavírus
parece-me mais antipático hoje em dia. Agora, se pensarmos que, por ano, morrem
mais de 700 mil pessoas com VIH, 40 anos depois do surgimento da doença, o VIH
é muito mais antipático.
É expectável que este novo coronavírus, daqui a
40 anos, seja mais bem controlado?
Pode
acontecer que, de tempo a tempo, apareça uma estirpe particularmente violenta,
como acontece com o vírus da gripe. Mas ninguém pode honestamente dizer o que
vai acontecer sequer no próximo ano.
Aproximam-se decisões complexas, que põem em
cima da mesa um balancear entre saúde pública e economia. O que é presumível
que se comece por desbloquear?
Os
italianos estão a pensar abrir dois tipos de lojas o mais rapidamente possível:
as livrarias e as de roupa para bebé. Por um lado, as pessoas precisam de ler.
Por outro, as mães e os pais italianos cujos filhos continuam a nascer querem
comprar roupa e não têm onde. Vamos ter de perceber até onde podemos ir e as
alturas em que teremos de recuar um pouco, sem contar com o Governo para dizer
“hoje fecha loja, amanhã abre loja”. Sabemos que a infeção em Portugal, como
noutros países, está numa linha descendente em resposta a um conjunto de
medidas. Mas as decisões de natureza social e económica são essenciais nas
escolhas sanitárias.
Pelo que sabemos da História, a forma de vencer
algumas pandemias foi manter alguma normalidade social, por forma a criar
imunidade de grupo. Desta vez o mundo optou por não o fazer. A vida humana é
agora mais valiosa?
Hoje em
dia, como é evidente, a vida vale muito mais. E sobretudo há uma tensão muito
grande entre o valor económico e o valor da saúde. Só que às vezes parece que
as pessoas se esquecem de uma certeza: não há boa saúde sem boa economia.
E a pobreza económica gera pior saúde?
A pobreza é
o principal determinante de doença. Podemos não saber muito sobre o vírus, mas
sobre a relação da pobreza com a saúde temos conhecimento inequívoco. Podemos
não gostar de falar disto, podemos sentir-nos impotentes para mudar a situação,
mas não vale a pena fazermos de conta que não o sabemos.
Neste momento preocupa-o mais o vírus ou as
consequências socioeconómicas que ele acarreta?
Não consigo
responder. Podemos estar a prejudicar pessoas com necessidade de recorrer aos
serviços de saúde, que não o fazem por medo ou porque esses mesmos serviços,
focados na resposta aguda ao coronavírus, estão menos “amigáveis”. Este é um
excelente exemplo de que há um balanço a fazer.
Na saúde mental - de que não se tem falado
muito - qual é o prognóstico?
Uma
preocupação muito sublinhada nas discussões do Conselho Nacional de Saúde tem
sido não esquecermos, de um momento para o outro, as pessoas com problemas de
saúde mental. Por outro lado, estas medidas excecionais têm impacto na saúde
mental. Do que conhecemos, poderão aumentar os conflitos e as formas de
violência interpessoal. Vai haver gente a precisar de ajuda profissional
especializada e temos de estar preparados.
O "El País" chamou-nos os suecos do
sul da Europa. Conhecendo o sistema de saúde sueco, porque foi lá investigador,
até que ponto as medidas mais frouxas da Suécia caberiam num país como
Portugal?
Quando
trabalhei na Suécia, nunca fui ao quarto de banho do hospital que não tivesse
papel, sabonete e toalha de limpar as mãos. Se é dessa Suécia que está a falar,
gostaria que fizéssemos o mesmo. Mas não podemos mudar em meses séculos de
cultura. Um japonês não se cumprimenta com a mão, baixa a cabeça. Não há
sociedades melhores ou piores.
Estava a referir-me às medidas de combate à
covid-19...
Na China,
que foi brutalmente autoritária, entre o momento do anúncio do cerco sanitário
a Wuhan, por volta das 2h da manhã, e o início da aplicação da medida, às 9h da
manhã, cinco mil pessoas saíram da cidade. Se as pessoas não compreenderem as
medidas, encontram sempre formas alternativas de tornear o problema.
As medidas aplicadas em Portugal foram as
melhores para a sociedade?
Foram de
certeza, porque não saberemos jamais se poderia ter sido de outra maneira. E
olhando para o que se está a passar, tudo leva a crer que foi bem feito.
Disse que o tempo da informação científica não
se podia confundir com o tempo da informação política.
O Governo -
e muito bem - tomou as decisões que tinha de tomar. Ninguém pode honestamente
dizer que há fundamentação científica para a generalidade delas.
O mundo pode chegar à conclusão de que esteve
errado ao tomar certas atitudes?
É cedo para
fazer esse balanço. Os políticos precisam de fazê-lo rapidamente e tomar
atitudes. A ciência precisa de mais tempo. Convém não pedir à ciência aquilo
que ela não pode dar. Mas começa a haver alguns sinais de que a informação
vinda da China ter-nos-á levado a não considerar aspetos que um conhecimento
mais profundo nos faria valorizar.
Como quais?
Aquando do
SARS, em 2002, não houve este alarme todo que temos agora. Nos últimos 20 anos,
o número de aeroportos da China multiplicou-se por mais de cinco vezes. O
número de passageiros internacionais multiplicou-se mais do que essas vezes.
Muita gente pensou que a situação seria parecida ao SARS, que ia haver alguma
contenção local do problema. E é interessante sermos tão entusiasmados em relação
à capacidade de contenção dos países daquela região e não nos perguntarmos
porque diabo o vírus cá veio parar.
Houve medidas não tomadas no tempo devido?
É uma
pergunta que se pode colocar. A infeção teve menos impacto em Pequim, que é a
capital da China, do que em Milão. Se a contenção local tivesse sido feita como
se diz que foi, esperávamos um vírus localmente contido.
Uma segunda curva é um cenário certo, por esta
hora?
Ao
raciocinarmos por analogia, se na China não houve segunda curva, porque haverá
na Europa? Mas se me pergunta: ao abrirmos tudo, haverá um novo crescimento da
infeção? Seguramente sim. Mas sairmos de casa não é só por si uma fatalidade.
Voltando à experiência do VIH, a solução não foi deixar de ter relações
sexuais, foi passar a ter relações sexuais com preservativo.
O nosso maior ganho, neste interregno, foi
termos aprendido a defender-nos?
Gostaria de
ser otimista, mas infelizmente, por exemplo, nos meios de comunicação social,
gastamos mais tempo a falar do que não sabemos do que a usá-lo para atividades
de caráter pedagógico.
Ainda lê notícias?
Sim. Mas
noto os conteúdos opinativos pouco fundamentados. O relevo da opinião dos
peritos é desvalorizado porque a opinião científica se deixou tingir por
valores e escolhas que não têm nada de técnica. A ninguém interessa a minha
opinião sobre construção civil ou sobre desporto motorizado.