“Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.”
Ensaio sobre a Cegueira – José Saramago
Os dados hoje
publicados pela OCDE no seu relatório anual “Health at Glance: Europe 2016” (aqui) mostram
que a percentagem de portugueses (com baixos rendimentos) que relataram ter ficado sem cuidados de saúde
por razões financeiras, subiu de 2.2% em 2008 para 6.3% em 2014, confirmando os
dados publicados pelo Observatório Português dos Sistemas de Saúde nos seus
Relatórios da Primavera (aqui) e pelo estudo “O Sistema de Saúde Português no Tempo da
Troika: A experiência dos médicos” (aqui) (aqui)e contrariando as conclusões do estudo “Políticas
Públicas na Saúde: 2011-2015 Avaliação do
Impacto” da Nova School of Business and Economics para o Ministério da Saúde em
2015 (aqui) (aqui).
No passado
dia 21 de Novembro, por ocasião do Dia Mundial da Pesca, realizou-se em Roma na
sede da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), uma
conferência internacional promovida por aquela organização e pela Santa Sé
sobre o tema “A violação dos direitos humanos no sector da pesca e da pesca
ilegal”. (aqui)
Durante a
conferência o diretor-geral da FAO, José Graziano da Silva, disse que embora a indústria
da pesca forneça comida e rendimento para milhões de pessoas e ofereça
múltiplas oportunidades aos mais de 50 milhões de pessoas que aí trabalham,
também vitimiza os mais vulneráveis, sendo um dos setores onde se verifica um
elevado número de trabalhadores escravizados.
Sustentando
1 em cada 10 pessoas no mundo, sendo um dos produtos mais comercializados à
escala global, com um valor de 135 bilhões de dólares em receitas de exportação
em 2015, proporcionando mais receita líquida do que o arroz, a carne e o açúcar
combinados, a indústria da pesca envolve uma frota mundial de cerca de 4,6 milhões
de embarcações, composta por 64.000 grandes navios de mais de 24 metros de
comprimento e por uma enorme maioria de barcos de menos 12 metros de
comprimento, onde milhares de pescadores são sujeitos à exploração, ao trabalho
escravo e ao tráfico humano (aqui).
Na sua
mensagem à Conferência o Papa Francisco (aqui), para além de lembrar algumas das
ameaças que afetam e destroem os recursos marinhos inscritas na Encíclica Laudato Sí, e congratular-se com a entrada em vigor da PSMA (Port State
Measures Agreement) com objetivo de acabar uma vez por todas com a pesca ilegal
responsável por cerca de 11-26 milhões de toneladas de pescado, chama a atenção
para a situação de exploração e abuso sofrida por muitos pescadores, “… hundreds
of thousands of internal/transnational migrants who are smuggled/ trafficked
for forced labor on board of fishing vessels” favorecidas pela intervenção de redes
de organizações criminosas que se alimentam de pessoas em situação de pobreza,
à procura de um emprego que as poderia ajudar a romper com o círculo da miséria
em que se encontram, mas que em vez disso, acabam endividadas, traficadas e
escravizadas.
Na sua
mensagem o Papa Francisco afirma "O tráfico de seres humanos é um crime
contra a humanidade, devemos unir os nossos esforços para libertar as vítimas e
acabar com este crime cada vez mais agressivo que ameaça não só os indivíduos
mas também os valores fundamentais da sociedade e da segurança e justiça
internacionais" apelando para que os Governos ratifiquem a Convenção (n.º
188) sobre o Trabalho na Pesca, da Organização Internacional do Trabalho, de
forma a garantir que os frutos do mar que chegam aos nossos pratos tenham sido
produzidos de uma forma ambientalmente sustentável, e que os trabalhadores do
setor da pesca que aí desenvolvem a sua atividade laboral, o façam num ambiente
seguro, que lhes permita um descanso adequado, cuidados de saúde apropriados, e
estejam protegidos por um contrato de trabalho escrito e uma proteção social
semelhante à dos outros trabalhadores.
No passado
dia 21 de Setembro a revista Lancet publicou o estudo “Measuring the
health-related Sustainable Development Goals in 188 countries: a baseline
analysis from the Global Burden of Disease Study 2015” (aqui), onde os autores
analisam 33 indicadores dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda
2030, estabelecidos pela Assembleia Geral das Nações Unidas em Setembro de 2015
relacionados com o “Global Burden of Disease (GBD)”.(aqui)
O GBD é o
estudo de observação epidemiológica mais abrangente do mundo até esta data.
Descreve a mortalidade e a morbilidade por doenças graves, lesões e fatores de
risco para a saúde nos níveis global, nacional e regional. Produz estimativas
por causas, idade, sexo e país desde 1990, examina tendências e faz comparações
entre as populações, mede as características do sistema de saúde, a exposição a
fatores de risco, e a mortalidade e morbilidade atribuíveis a esses riscos.
Permite o cálculo de DALY´s (anos de vida ajustados à incapacidade), que
representa os anos perdidos de vida saudável devido a doença, lesão ou fator de
risco e resulta da soma de dois indicadores distintos: anos de vida perdidos
(YLL, que mede a mortalidade prematura e os anos vividos com incapacidade
(YLD).
Um recente
trabalho do Glasgow Centre for Population Health, da University of the West of
Scotland e do University College London “ History, politics and vulnerability:
explaining excess mortality in Scotland and Glasgow” (aqui) resume toda a investigação
publicada, cerca de 40 trabalhos, acerca do denominado “efeito de Glasgow”,
procurando encontrar as causas para o “excesso” de mortalidade verificado na
Escócia (mais 5.000 mortes) em comparação com a mortalidade encontrada na
Inglaterra e no País de Gales, ajustadas as diferenças de pobreza e privação.
Este
excesso de mortalidade é particularmente acentuado em Glasgow, não sendo
explicado apenas pelos elevados níveis de pobreza quando comparado com o
verificado em cidades comparáveis como Liverpool e Manchester.
O estudo
revela que para além da privação e da pobreza resultantes da
desindustrialização “the loss of industrial jobs expressed in relation to the
size of the industrial employment base in 1931) was 47% in Scotland compared
with 30% in England” da Escócia e da cidade de Glasgow, o excesso de
mortalidade verificado em comparação com as cidades de Liverpool, Manchester e
Belfast, resulta de uma política urbana desenvolvida entre 1945 – 1980, que favoreceu
a deslocação da população mais jovem e mais qualificada, o «skimming the cream»,
os “melhores cidadãos” para novas cidades nos arredores de Glasgow, como Cumbernauld
(1955), Livingston (1962) and Irvine (1966), enquanto em Glasgow eram deixados
os pobres, os mais velhos e a população desempregada, muitas vezes alojados em
bairros sociais construídos em altura, como reconhecia o Scottish Office em
1970 “ Glasgow is in a socially… [and] economically dangerous position. The
position is becoming worse because, although the rate of population reduction…
is acceptable, the manner of it is destined within a decade or so to produce a
seriously unbalanced population with a very high proportion of the old, the
very poor and the almost unemployable…”, seguida nos anos seguinte por uma
política de desenvolvimento urbano sustentada no lema “that “what’s good for
business is good for Glasgow”, que levou ao aparecimento duma cidade dual, onde
as zonas pobres, os bairros sociais isolados, ficarm sujeitas à degradação e ao
baixo investimento público em conservação e manutenção.
A par destas políticas
urbanas, os autores do estudo identificam ainda duas outras explicações para a
uma maior vulnerabilidade da população de Glasgow, o capital social e o défice
democrático.
De acordo
com o estudo " Worldwide trends in blood pressure from 1975 to 2015: a
pooled analysis of 1479 population-based measurement studies with 19.1 million
participants" ontem publicado (15-11-2016) na Revista Lancet (aqui), liderado por
investigadores do Imperial College de Londres, a pressão arterial elevada,
definida como 140/90 mmHg ou superior, afeta em todo o mundo cerca 1.13 bilhões
de pessoas, 597 milhões de homens e 529 milhões de mulheres, praticamente o
dobro das que apresentavam valores elevados há 40 anos.
O estudo
liderado pelo NCD-RisC, uma rede de cientistas de todo o mundo coordenados pelo
"WHO Collaborating Centre on NCD Surveillance and Epidemiology at Imperial
College London" cujo Diretor é o Professor Majid Ezzati (aqui), estudou as
mudanças na pressão arterial em todos os países do mundo entre 1975 e 2015,
tendo verificado um aumento da pressão arterial nos países de renda baixa e
média, especialmente na Ásia onde se encontram praticamente metade dos adultos
com hipertensão arterial, cerca de 226 milhões de pessoas na China e cerca de 200
milhões de pessoas na Índia.
De acordo
com os dados agora publicados os países com a maior proporção de homens com
hipertensão arterial, situam-se na Europa Central, na Europa de Leste e nos Balcãs,
Croácia, Letónia, Lituânia, Hungria, Eslovénia, Roménia, Polónia, República
Checa, Montenegro, Eslováquia, Estónia, Bósnia- Herzegovina, Servia, Moldávia e
Bulgária. Portugal aparece em 42.º lugar e é primeiro dos países da Europa
Ocidental elencados.
Globalmente
a pressão sistólica média, padronizada por idade, manteve-se praticamente
inalterada entre 1975 e 2015 nos homens e diminuiu ligeiramente nas mulheres, enquanto,
a pressão diastólica média manteve-se inalterada.
O estudo conclui que “ Blood pressure is a multifaceted
trait, affected by nutrition, environment, and behaviour throughout the life
course, including fetal and early childhood nutrition and growth, adiposity, specific
components of diet, especially sodium and potassium intakes, alcohol use, smoking,
physical activity, air pollution, lead, noise, psychosocial stress, and the use
of blood pressure lowering drugs. Changes in risk factors and improvements in
detection and treatment of raised blood pressure have, at least partly,
resulted in the decrease in blood pressure in high-income countries, although
the decrease seems to have begun before or in the absence of specific
interventions for risk factors and scale-up of treatment, and is only partly
accounted for by the measured risk factors and treatment. In particular,
the decrease in high-income and some middle-income countries has happened
despite increasing body-mass index. The partly unexplained nature of these favorable
trends necessitates speculation about their drivers, which might include
unmeasured improvements in early childhood nutrition and year-round
availability of fruits and vegetables, which might increase the amount and regularity
of their consumption.”, confirmando a importância das vias de relacionamento
entre os “residential environments” e os fatores de risco cardiovascular, desenvolvidos por Ana Diez Roux no seu trabalho “ Residential
Environments and Cardiovascular Risk” publicado em 2003 no Journal of Urban
Health: Bulletin of the New York Academy of Medicine. (aqui)
O Dia Mundial da Diabetes é celebrado desde 1991 por iniciativa conjunta da Federação Internacional da Diabetes e da Organização Mundial de Saúde (OMS), no dia 14 de Novembro, (data em que nasceu o Dr. Frederick Banting, o principal investigador da insulina)tendo sido oficializado em 2006 pela Resolução 61/225 das Nações Unidas (aqui).
A Diabetes é uma doença crónica, com uma enorme carga e um peso crescente na carga de doença mundial, atingindo em 2015 cerca de 415 milhões de adultos em todo o mundo, o número que se prevê que possa crescer para 642 milhões em 2040.(aqui)
Com o crescimento da má nutrição e da inatividade física, num ambiente mundial obesogénico, em que os sistemas globais de alimentos são fortemente influenciados pelas empresas multinacionais de alimentos e bebidas (Big Food), com enorme poder e concentração de mercado, levando ao aumento da produção e consumo de produtos ultraprocessados de alta densidade calórica e de refrigerantes, mais pessoas estão em risco de ficarem obesas e diabeticas. (aqui)
Para fazer face a esta situação não basta diagnosticar a diabetes, são necessárias desenvolver políticas públicas, em que incorporem determinantes de saúde como o crescimento económico, a redução das desigualdades sociais e da pobreza, a educação, o desemprego e o acesso aos serviços de saúde, só um melhor do conhecimento do ciclo sociobiológico da Diabetes ou das diversas vias que conduzem à Diabetes. (aqui)(aqui)
A recente atualização dos “ Indicadores
Essenciais de Saúde Europeus – European Core Health Indicators” no início do
mês de Novembro, deu a conhecer um indicador “inesperado” para as autoridades
de saúde portuguesas (aqui), o indicador relativo aos anos de vida saudável (ou
"esperança de vida sem incapacidades") que indica o número de anos
que uma pessoa pode esperar viver sem sofrer de incapacidades.
O indicador "Anos de Vida Saudável"
(HLY - Healthy Life Years) faz parte do principal painel de indicadores
estruturais europeus, e é utilizado para: analisar a saúde como fator económico
e de produtividade; introduzir o conceito de qualidade de vida; avaliar a
empregabilidade dos trabalhadores mais velhos; acompanhar os progressos
realizados em termos de acesso, qualidade e sustentabilidade dos cuidados de
saúde e é calculado a partir das tábuas da mortalidade e dos dados da limitação
da atividade avaliados no EU-SILC do Eurostat (Inquérito às Condições de Vida e
Rendimento das Famílias (EU-SILC) é realizado em Portugal desde 2004).(aqui)
Os dados agora publicados indicam uma
retrocesso no indicador "Anos de Vida Saudável" entre os anos de 2013
e 2014 de cerca de 3 anos para ambos os sexos (de 9.3 anos para 5.6 anos nas
mulheres (-3.7) e de 9.9 anos em 2012, para 9.6 anos em 2013 e 6.9 nos homens
(-3), apontando para uma avaliação negativa realizada pelas pessoas com mais de
65 anos quando questionadas acerca do seu estado de saúde e do acesso aos
serviços de saúde (De uma maneira geral, como considera o seu estado de saúde? Tem
alguma doença ou problema de saúde prolongado?Tem há 6 ou mais meses as suas capacidades limitadas para fazer
atividades consideradas habituais para a generalidade das pessoas, devido a um
problema de saúde? Durante os últimos 12 meses, necessitou realmente de
consultar um médico/dentista, fazer um exame ou um tratamento médico/tratamento
dentário e se não o fez, Qual a principal
razão para não ter efetuado a consulta médica, o exame ou o tratamento?) (aqui).
De certeza que necessitamos de mais estudos e
investigação sobre o efeito dos determinantes sociais sobre a saúde das
pessoas, vivamos sobre crise económica e financeira ou não, mas o que já não entendemos
é como que as autoridades de saúde portuguesas são “apanhadas de surpresa” uma
vez que os dados agora publicitados são tratados e recolhidos pelo INE.