domingo, 5 de maio de 2024

Óleo sobre tela - Centro de Arte Moderna Gulbenkian

Maternidade - José de Almada Negreiros

As Mães

Quando voltar ao Alentejo as cigarras já terão morrido. Passaram o verão todo a transformar a luz em canto - não sei de destino mais glorioso. Quem lá encontraremos, pela certa, são aquelas mulheres envolvidas na sombra dos seus lutos, como se a terra lhes tivesse morrido e para todo o sempre se quedassem órfãs. Não as veremos apenas em Barrancos ou em Castro Laboreiro, elas estão em toda a parte onde nasça o sol: em Cória ou Catania, em Mistras ou Santa Clara del Cobre, em Varchats ou Beni Mellal, porque elas são as Mães. O olhar esperto ou sonolento, o corpo feito um espeto ou mal podendo com as carnes, elas são as Mães. A tua; a minha, se não tivera morrido tão cedo, sem tempo para que o rosto viesse a ser lavrado pelo vento. Provavelmente estão aí desde a primeira estrela. E como duram! Feitas de urze ressequida, parecem imortais. Se o não forem, são pelo menos incorruptíveis, como se participassem da natureza do fogo. Com mãos friáveis teceram a rede dos nossos sonhos, alimentaram-nos com a luz coada pela obscuridade dos seus lenços. Às vezes encostam-se à cal dos muros a ver passar os dias, roendo uma côdea ou fazendo uns carapins para o último dos netos, as entranhas abertas nas palavras que vão trocando entre si; outras vezes caminham por quelhas e quelhas de pedra solta, batem a um postigo, pedem lume, umas pedrinhas de sal, agradecem pela alma de quem lá têm, voltam ao calor animal da casa, aquecem um migalho de café, regam as sardinheiras, depois de varrerem o terreiro. Elas são as Mães, essas mulheres que Goethe pensa estarem fora do tempo e do espaço, anteriores ao Céu e ao Inferno, assim velhas, assim terrosas, os olhos perdidos e vazios, ou vivos como brasas assopradas. Solitárias ou inumeráveis, aí as tens na tua frente, graves, caladas, quase solenes na sua imobilidade, esquecidas de que foram o primeiro orvalho do homem, a primeira luz. Mas também as podes ver seguindo por lentas veredas de sombra, as pernas pouco ajudando a vontade, atrás de uma ou duas cabras, com restos de garbo na cabeça levantada, apesar das tetas mirradas. Como encontrarão descanso nos caminhos do mundo? Não há ninguém que as não tenha visto com umas contas nas mãos engelhadas rezando pelos seus defuntos, rogando pragas a uma vizinha que plantou à roda do curral mais três pés de couve do que ela, regressando da fonte amaldiçoando os anos que já não podem com o cântaro, ou debaixo de uma oliveira roubando alguma azeitona para retalhar. E cheiram a migas de alho, a ranço, a aguardente, mas também a poejos colhidos nas represas, a manjerico quando é pelo S. João. E aos domingos lavam a cara, e mudam de roupa, e vão buscar à arca um lenço de seda preta, que também põem nos enterros. E vede como, ao abrir, a arca cheira a alfazema! Algumas ainda cuidam das sécias que levam aos cemitérios ou vendem nas feiras, juntamente com um punhado de maçãs amadurecidas no aroma dos fenos. E conheço uma que passa as horas vigiando as traquinices de um garoto que tem na testa uma estrelinha de cabrito montês - e que só ela vê, só ela vê.

Elas são as Mães, ignorantes da morte mas certas da sua ressurreição.

 Eugénio de Andrade, in 'Vertentes do Olhar'

domingo, 29 de janeiro de 2023

O NHS está doente, mas é tratável - Editorial da Lancet - janeiro 2023

O Serviço Nacional de Saúde tem 75 anos de idade e não está bem. Os doentes com suspeita de ataque cardíaco esperam uma ambulância cinco vezes mais tempo do que a meta de 18 minutos. Em 2022, 347.707 doentes passaram mais de 12 h nos serviços de Acidentes e Emergências à espera de uma cama, quatro vezes mais do que nos 10 anos anteriores juntos. O excesso de mortes em 2022 foi o mais elevado em 50 anos. Estão a sair números recorde de profissionais do SNS. Infelizmente, é provável que as coisas piorem antes de melhorarem. Pela primeira vez na história do SNS, tanto enfermeiros como pessoal de ambulâncias irão fazer greve a 6 de fevereiro, a menos que se chegue a um acordo sobre os salários. Os médicos em formação também irão votar se vão fazer greve. Este é sem dúvida o momento mais perigoso para o SNS desde o seu início.



 

Problemas crónicos e agudos têm-se conjugado para fomentar esta rápida deterioração. Embora os sintomas estejam presentes desde pelo menos 2015, têm sido mal diagnosticados e deixados sem tratamento. O subinvestimento, a falta de pessoal e o funcionamento do sistema na sua capacidade máxima foram exacerbados pela profunda desmoralização e exaustão do pessoal do SNS, pelo aumento da procura de serviços e pelo aumento da COVID-19 e da gripe no inverno. A saúde da população tem sido negligenciada, o atraso na esperança de vida e as deficiências do sistema de assistência social têm sido ignorados.

 

No debate sobre soluções, há várias confusões inúteis. Primeiro, a tendência do Governo é acreditar que o atual modelo do SNS é insustentável e necessita de uma mudança radical, com copagamentos e contribuições de utilizadores com mais meios, como foi recentemente dito pelo ex-Secretário da Saúde Sajid Javid. Este ponto de vista é profundamente errado. Com a abordagem certa, o SNS é sustentável e deve manter o princípio da prestação de cuidados gratuitos conforme as necessidades, que é o fundamento de uma sociedade justa. Segundo, que o SNS tem um problema de produtividade e que não faz o suficiente com o que lhe é dado. Isto é mal-entender o objetivo dos cuidados de saúde, que não são uma fábrica para doentes, julgados de acordo com uma métrica grosseira de eficiência, mas um serviço baseado em cuidados, solidariedade e qualidade. Continuar a concentrar-se em fazer comparativamente mais por comparativamente menos é perigoso e obviamente prejudicial. Em terceiro lugar, que os desafios enfrentados pelo SNS podem ser resolvidos através do recurso a um setor de saúde privado mais forte. O pessoal do setor privado do Reino Unido é maioritariamente proveniente do mesmo pessoal que compõe o setor público. Roubar um para fortalecer outro, enquanto se destrói fatalmente o serviço de saúde, não faz sentido. Em quarto lugar, a proposta de uma Comissão Real ou de um consenso interpartidário é pouco provável que seja útil. O SNS enfrenta uma crise de pessoal e uma crise de capacidade estreitamente ligadas a uma crise social. Temos um diagnóstico e o Governo deve agora avançar para tratar estas patologias. Evitar fazê-lo deve ser visto como uma escolha ideológica e não é devido a uma incurabilidade fundamental e inata.

 

A curto prazo, existem dois remédios. Primeiro, o Governo tem de reconhecer que o SNS está em crise e requer uma ação urgente e sem paralelo. Em segundo lugar, deve transmitir uma mensagem de valor aos profissionais do SNS, sob a forma de compromissos relativamente a um acordo financeiro para pagamentos e compromissos não-financeiros, tais como abordar questões relativas a reformas de pensões, melhorar as condições básicas de trabalho e apresentar propostas concretizáveis sobre políticas de pessoal. Por sua vez, o SNS tem de aceitar que, seja qual for a causa, tem um problema de cultura. Racismo, sexismo, intimidação, assédio e conflito estão disseminados. Uma cultura de trabalho tóxica é a razão mais frequentemente citada para abandonar o SNS e tem um impacto negativo nos cuidados aos doentes.

 

A longo prazo, o investimento na saúde pública e na prevenção deve ser aumentado como a principal forma de reduzir a procura no SNS. O Governo deve afastar-se das injeções de dinheiro a curto prazo e utilizar fundos provenientes dos impostos para proporcionar aumentos sustentados e previsíveis no financiamento. Desta forma, a capacidade e a resiliência podem ser incorporadas de novo no sistema a partir do zero, com investimento em pessoal, edificado e tecnologias. O SNS deve melhorar no rápido desenvolvimento e disseminação da inovação, e a adoção de novos modelos de trabalho não deve ser bloqueada pelas opiniões tradicionais sobre papéis e responsabilidades. Qualquer coisa é melhor do que o atual modelo de assistência social, que monetariza a vulnerabilidade, enriquece alguns prestadores e deixa mais de um quarto dos profissionais de serviço social a viver na pobreza.

   Os cuidados negligentes do SNS puseram o serviço de rastos. Mas ao contrário da narrativa popular, há vitórias rápidas. Assim, não pouco importante, é preciso valorizar e motivar quem trabalha no SNS, quem é responsável pela proteção da saúde da nação durante esta crise económica sem precedentes que está a agravar as desigualdades e a levar milhares de pessoas à pobreza e à precariedade. n

 

Tradução para português de Rosalvo de Almeida

TheLancet    Editorial     Vol 401 January 28,2023, p. 245

31.01.2023 - ENTREGA DO PRÉMIO NACIONAL DE SAÚDE 2019 A CONSTANTINO SAKELLARIDES

 


domingo, 28 de fevereiro de 2021

ATLAS MORTALIDADE ESPANHA 1996-2015 - REVELA DESIGUALDADES GEOGRÁFICAS BAIRRO A BAIRRO

Foi recentemente atualizado o Atlas da Mortalidade em Espanha, uma aplicação disponível na web, que mostra os principais resultados do projeto de investigação MEDEA3, intitulado “Desigualdades socioeconómicas e ambientais na distribuição geográfica da mortalidade em (23) grandes cidades de Espanha entre 1996-2015”.

O novo Atlas da Mortalidade, mais detalhado que os 2 anteriores, mostra profundas desigualdades entre os moradores de uma mesma cidade, às vezes apenas separados por uma rua.

De acordo com os resultados apresentados, verifica-se sempre o mesmo padrão, que corresponde à privação socioeconómica e ao gradiente social.

Assim o risco de morrer pelas 15 causas analisadas: SIDA, cancro do estômago, cancro do cólon e reto, cancro do pulmão, cancro da mama, cancro da próstata, cancro da bexiga, cancro hematológico, Diabetes, Demência, Doença cardíaca isquémica, Doença cerebrovascular, DPOC, Doenças fígado e cirrose, Suicídio e lesões autoinfligidas, Acidentes de tráfego, concentram-se nos bairros mais pobres. Nos homens são mais relevantes o cancro do pulmão, a DPOC e a SIDA, nas mulheres a Diabetes e em ambos os sexos, as doenças do fígado e a cirrose e o cancro do estômago.

Os autores analisaram um milhão de mortes em 26 cidades espanholas entre 1996 e 2015, agrupando as mortes por setores censitários, pequenas áreas onde vivem cerca de 1.500 residentes que votam no mesmo colégio eleitoral. O atlas permite visualizar os efeitos da desigualdade socioeconómica em função dos rendimentos, da habitação, do desemprego e da marginalização social.

Os dados recolhidos através de um índice de privação, confirma o resultado de outros estudos, associando os baixos salários, a habitação e os trabalhos a uma pior alimentação, a uma menor atividade física e um maior consumo de tabaco e álcool.

Efeito da privação na mortalidade por DPOC - Bilbao 

Algumas ruas funcionam como uma fronteira entre dois mundos diferentes, um de cada lado da calçada, confirmando trabalhos anteriores já divulgados. (aqui) (aqui) (aqui)

No passado dia 20 de fevereiro a edição do jornal El País, num extenso trabalho dá a conhecer 10 exemplos de bairros que espelham bem o papel dos determinantes sociais nas desigualdades em saúde (aqui).

Terminamos citando Michael Marmot “Why treat people and send them back to the conditions that make them sick”

quarta-feira, 15 de julho de 2020

USA: 5,4 MILHÕES DE NORTE-AMERICANOS PERDERAM A COBERTURA DE SAÚDE DESDE O INÍCIO DA PANDEMIA COVID-19


No passado dia 13 de julho, a organização norte-americana Families USA publicou um estudo intitulado “ The COVID-19 Pandemic and Resulting Economic Crash Have Caused the Greatest Health Insurance Losses in American History” (aqui)onde aborda os efeitos da pandemia COVID-19 na economia americana, a perda de empregos daí resultante e os seus efeitos na cobertura de saúde e no estado de saúde desses cidadãos na ausência de medidas legislativas federais com vista à proteção do direito à saúde dos cidadãos.

De acordo com os dados recolhidos junto de fontes oficiais, pela USA Families, 21.9 milhões norte-americanos perderam o seu trabalho entre fevereiro e maio de 2020 devido à maior crise de saúde pública que ocorreu nos últimos 100 anos, causando o maior colapso económico verificado desde a II Guerra Mundial. Em poucos meses, milhões de trabalhadores perderam seus empregos e pelo menos 5.4 milhões deles deixaram de ter qualquer cobertura de saúde, uma vez perderam simultaneamente acesso ao seguro de saúde anteriormente fornecido por seus empregadores, provocando um aumento de 39% no número de pessoas que perderam o seguro de saúde, ultrapassando em apenas 3 meses o maior crescimento anual anteriormente verificado de 3.9 milhões durante a crise de 2008/2009.

Esta perda de cobertura de saúde atingiu principalmente os 5 estados mais afetados pela pandemia de COVID-19, Califórnia, Texas, Flórida, Nova Iorque e Carolina do Norte responsáveis por 49% do aumento total das pessoas que perderam acesso aos seguros de saúde. Em 8 estados, 20% ou mais dos adultos abaixo dos 65 anos não têm agora qualquer cobertura de saúde: o Texas, onde quase três em cada dez adultos com menos de 65 anos não têm seguro (29%); a Flórida (25%); o Oklahoma (24%); a Geórgia (23%); o Mississippi (22%); o Nevada (21%); a Carolina do Norte (20%); e a Carolina do Sul (20%).

Todos, com exceção do Oklahoma, também estão entre os 15 estados com o maior número de novos casos de SARS-CoV-2 durante a semana que terminou em 12 de julho.

Ao mesmo tempo 5 outros estados apresentaram aumentos no número de adultos sem seguro que excedem os 40%: Massachusetts, onde o número quase dobrou, aumentando em 93%; Havaí (72%); Rhode Island (55%); Michigan (46%); e New Hampshire (43%).

Sem nenhuma medida legislativa federal que reduza o impacto da perda de cobertura de saúde, os mais de 5.4 milhões cidadãos norte-americanos que perderam a cobertura de saúde veem assim a sua saúde posta em risco quer pela exposição à SARS-Cov-2, uma vez que sem cobertura de saúde as pessoas tendem a atrasar a procura de cuidados por causas dos custos, arriscando a sua saúde, a sua sobrevivência e acelerando a propagação do vírus para familiares e vizinhos, quer pela dificuldades em obter diagnósticos e tratamentos por condições crónicas como o cancro ou as doenças cardíacas ou cerebrovasculares, atrasando procedimentos e causando mesmo a morte precoce.

Sem cobertura de saúde que as protejam contra os riscos financeiros que as despesas extras em saúde podem provocar, mesmo em famílias da classe média, muitas famílias terão que optar entre pagar as despesas em saúde do seu próprio bolso ou suprir as suas necessidades básicas, quer com alimentação quer com a habitação, adiantando o documento que de acordo com números oficiais, em maio 26 milhões de famílias não tinham comida suficiente para se alimentar, e que 38 milhões de pessoas referiam ter pouca ou nenhuma capacidade para pagar a hipoteca ou a renda do próximo mês.

Sem cobertura universal de saúde, sem legislação federal que os proteja milhões de norte-americanos estarão condenados a sobreviver sem qualquer proteção de saúde.

sábado, 9 de maio de 2020

BOLSONARO É A MAIOR AMEAÇA AO COVID-19 NO BRASIL - Editorial da LANCET 9 maio


Na sua edição de hoje a Lancet, uma das mais antigas e prestigiadas revistas médicas do mundo, dedica o seu Editorial ao Brasil e à sua resposta à Pandemia do COVID-19, titulando que “ Bolsonaro é a maior ameaça à COVID-19 no Brasil sugerindo “Mude ou Saia” (aqui)

COVID-19 no Brasil: E daí?
Tradução livre com notas do Editorial da Lancet de 09 de maio 2020.

A pandemia de COVID-19 chegou mais tarde à América Latina do que a outros continentes (aqui). O primeiro caso registado no Brasil foi em 25 de fevereiro de 2020. Mas o Brasil é agora o país da América Latina com mais casos e mortes (147 003 casos e 10037 mortes em 9 de maio), apesar destes números serem subestimadas e provavelmente muito mais elevados (aqui) (aqui). Mas ainda mais preocupante, é a duplicação da taxa de mortes estimada em apenas 5 dias (aqui) assim como o resultado de um recente estudo do Imperial College (Londres, Reino Unido), que analisou a taxa de transmissão ativa do COVID-19 em 48 países, e que mostra que o Brasil é o país com a maior taxa de transmissão R0 de 2,81 (aqui). Grandes cidades como São Paulo e Rio de Janeiro são atualmente os principais locais de maior incidência do COVD-19, existindo sinais preocupantes de que os novos casos estão a caminhar para o interior dos estados atingindo cidades mais pequenas, com pouca capacidade de resposta quer em camas de cuidados intensivos quer em ventiladores (aqui) (aqui). No entanto, talvez a maior ameaça à resposta ao COVID-19 no Brasil seja o seu presidente, Jair Bolsonaro.(aqui)(aqui)


Quando questionado pelos jornalistas na semana passada sobre o número cada vez maior de casos de COVID-19, respondeu: “E daí? O que quer você que eu faça?" Ele não apenas continua a semear confusão, desrespeitando abertamente as medidas sensatas de distanciamento e de confinamento decididos pelos governadores dos estados e pelos presidentes dos municípios, como perdeu dois ministros importantes e influentes nas últimas três semanas.(aqui)

Primeiro, em 16 de abril, Luiz Henrique Mandetta, o respeitado e bem quisto Ministro da Saúde, foi demitido depois ter criticado fortemente as ações de Bolsonaro numa entrevista à televisão, na qual pediu unidade nas decisões e nas mensagens do governo, com o risco de deixar os 210 milhões de brasileiros totalmente confusos. Depois no dia 24 de abril, após a demissão do chefe da polícia federal do Brasil por Bolsonaro, o ministro da Justiça Sérgio Moro, uma das figuras mais poderosas do governo de direita brasileiro nomeado por Bolsonaro para combater a corrupção, anunciou sua renúncia. Esta confusão no coração do governo é uma distração mortal no meio de uma emergência de saúde pública e também é um forte sinal de que a liderança do Brasil perdeu a sua bússola moral, se é que alguma vez a teve.

Mesmo sem este vazio de ações políticas ao nível do governo federal, o Brasil teria sempre dificuldades em combater o COVID-19. Cerca de 13 milhões de brasileiros vivem em favelas, em habitações que têm no geral mais de três pessoas por quarto e pouco acesso à água potável. As recomendações de distanciamento físico e higiene são quase impossíveis de seguir nesses locais – apesar de muitas favelas se terem auto-organizado para implementar as medidas da melhor maneira possível (aqui). O Brasil possui um grande setor informal de emprego, com muitas fontes de renda que não são mais uma opção. A população indígena que já estava sob séria ameaça mesmo antes do surto do COVID-19, porque o governo ignorou ou até incentivou a mineração e extração ilegal de madeira na floresta amazónica. Agora, esses madeireiros e mineradores correm o risco de levar o COVID-19 até às populações remotas da floresta amazónica. Uma carta aberta lançada no dia 3 de maio por Sebastião Salgado subscrita por centenas de artistas, intelectuais, cientistas e políticos de todo o mundo alerta para o genocídio iminente dos povos da floresta. (aqui)

E o que é que estão a fazer a sociedade civil e comunidade da saúde e da ciência do Brasil, num país conhecido pelo seu ativismo e franca oposição à injustiça e à desigualdade e favor da saúde como um direito constitucional?

Muitas organizações científicas, como a Academia Brasileira de Ciências e a ABRASCO, há muito se opõem a Bolsonaro por causa dos duros cortes no orçamento da ciência e pelas medidas que tem levado à destruição da segurança social e dos serviços públicos do Brasil.

No contexto do COVID-19, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a Comissão Arns, a Academia Brasileira de Ciências (ABC), a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) lançaram um o Pacto pela Vida e pelo Brasil que obteve o apoio de mais de 80 entidades. Muitas declarações e pedidos por escrito de funcionários do governo pedem unidade e soluções conjuntas.

Os “Panelaços”(aqui) como protesto durante as intervenções presidenciais acontecem com frequência. Há muita investigação em curso, da ciência básica à epidemiologia, e há rápida produção de equipamentos de proteção individual, respiradores e kits de teste.

Estas ações são sinais de esperança. No entanto, a liderança no mais alto nível do governo é crucial para evitar rapidamente o pior resultado desta pandemia, como é evidente em outros países. Na nossa série Lancet Brasil, os autores concluíram: “O desafio é, em última análise, político, exigindo o envolvimento contínuo da sociedade brasileira como um todo para garantir o direito à saúde de todos os brasileiros”.

O Brasil como país deve-se unir para dar uma resposta clara ao "E daí?" do seu Presidente. Ele precisa mudar drasticamente de rumo ou deve ser o próximo a sair.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

“A POBREZA É O PRINCIPAL DETERMINANTE DE DOENÇA”. ENTREVISTA A HENRIQUE BARROS - EXPRESSO


Tem trabalhado em casa, apesar da perda social que considera ser a “invasão do domicílio pelo espaço laboral”. Lá não encontra ninguém, “nem o vírus”. Entre as reuniões espelhadas no ecrã do computador, o epidemiologista e professor, de 62 anos, coordena o Conselho Nacional de Saúde, órgão consultivo do Governo na linha da frente da gestão da crise sanitária, e é presidente do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto. Vive agora um dos maiores desafios profissionais da carreira. Não tem medo, mas respeito suficiente pela ciência para constatar que se lhe pede muitas vezes o que ela não pode oferecer.

Entrevista ao Expresso 30.04.2020

Numa crise de saúde pública como esta, é mais determinante a mortalidade de um vírus ou a sua propagação?

É uma discussão interessante, essencialmente filosófica. Tendemos a dar funcionalidades aos agentes. “O vírus faz isto porque quer aquilo." Mas, que eu saiba, nunca ninguém falou com ele. Pressupomos, numa lógica darwiniana, existir um interesse competitivo que leva um agente a não ter qualquer vantagem em dar cabo dos hospedeiros. Razão pela qual, quando o agente chega, tem uma virulência maior do que aquela com que vai sobreviver. Por isso, no início, as pandemias têm um caráter mais grave.

Foi coordenador nacional do combate à sida em Portugal. Considera este vírus simpático?

A covid-19 tem uma alta capacidade de contágio, transmite-se na ausência de sintomas, há várias gerações de infeção que se sucedem com relativa rapidez. Não me parece nada simpático. Depois de conhecido, o VIH é potencialmente mais simpático, se pensarmos que temos formas de acabar com as infeções transmitidas de mãe para filho e através do sangue. Só não controlamos melhor as infeções transmitidas sexualmente porque não gostamos de usar preservativo. Portanto, o coronavírus parece-me mais antipático hoje em dia. Agora, se pensarmos que, por ano, morrem mais de 700 mil pessoas com VIH, 40 anos depois do surgimento da doença, o VIH é muito mais antipático.

É expectável que este novo coronavírus, daqui a 40 anos, seja mais bem controlado?

Pode acontecer que, de tempo a tempo, apareça uma estirpe particularmente violenta, como acontece com o vírus da gripe. Mas ninguém pode honestamente dizer o que vai acontecer sequer no próximo ano.

Aproximam-se decisões complexas, que põem em cima da mesa um balancear entre saúde pública e economia. O que é presumível que se comece por desbloquear?

Os italianos estão a pensar abrir dois tipos de lojas o mais rapidamente possível: as livrarias e as de roupa para bebé. Por um lado, as pessoas precisam de ler. Por outro, as mães e os pais italianos cujos filhos continuam a nascer querem comprar roupa e não têm onde. Vamos ter de perceber até onde podemos ir e as alturas em que teremos de recuar um pouco, sem contar com o Governo para dizer “hoje fecha loja, amanhã abre loja”. Sabemos que a infeção em Portugal, como noutros países, está numa linha descendente em resposta a um conjunto de medidas. Mas as decisões de natureza social e económica são essenciais nas escolhas sanitárias.

Pelo que sabemos da História, a forma de vencer algumas pandemias foi manter alguma normalidade social, por forma a criar imunidade de grupo. Desta vez o mundo optou por não o fazer. A vida humana é agora mais valiosa?

Hoje em dia, como é evidente, a vida vale muito mais. E sobretudo há uma tensão muito grande entre o valor económico e o valor da saúde. Só que às vezes parece que as pessoas se esquecem de uma certeza: não há boa saúde sem boa economia.

E a pobreza económica gera pior saúde?

A pobreza é o principal determinante de doença. Podemos não saber muito sobre o vírus, mas sobre a relação da pobreza com a saúde temos conhecimento inequívoco. Podemos não gostar de falar disto, podemos sentir-nos impotentes para mudar a situação, mas não vale a pena fazermos de conta que não o sabemos.

Neste momento preocupa-o mais o vírus ou as consequências socioeconómicas que ele acarreta?

Não consigo responder. Podemos estar a prejudicar pessoas com necessidade de recorrer aos serviços de saúde, que não o fazem por medo ou porque esses mesmos serviços, focados na resposta aguda ao coronavírus, estão menos “amigáveis”. Este é um excelente exemplo de que há um balanço a fazer.

Na saúde mental - de que não se tem falado muito - qual é o prognóstico?

Uma preocupação muito sublinhada nas discussões do Conselho Nacional de Saúde tem sido não esquecermos, de um momento para o outro, as pessoas com problemas de saúde mental. Por outro lado, estas medidas excecionais têm impacto na saúde mental. Do que conhecemos, poderão aumentar os conflitos e as formas de violência interpessoal. Vai haver gente a precisar de ajuda profissional especializada e temos de estar preparados.

O "El País" chamou-nos os suecos do sul da Europa. Conhecendo o sistema de saúde sueco, porque foi lá investigador, até que ponto as medidas mais frouxas da Suécia caberiam num país como Portugal?

Quando trabalhei na Suécia, nunca fui ao quarto de banho do hospital que não tivesse papel, sabonete e toalha de limpar as mãos. Se é dessa Suécia que está a falar, gostaria que fizéssemos o mesmo. Mas não podemos mudar em meses séculos de cultura. Um japonês não se cumprimenta com a mão, baixa a cabeça. Não há sociedades melhores ou piores.

Estava a referir-me às medidas de combate à covid-19...

Na China, que foi brutalmente autoritária, entre o momento do anúncio do cerco sanitário a Wuhan, por volta das 2h da manhã, e o início da aplicação da medida, às 9h da manhã, cinco mil pessoas saíram da cidade. Se as pessoas não compreenderem as medidas, encontram sempre formas alternativas de tornear o problema.

As medidas aplicadas em Portugal foram as melhores para a sociedade?

Foram de certeza, porque não saberemos jamais se poderia ter sido de outra maneira. E olhando para o que se está a passar, tudo leva a crer que foi bem feito.

Disse que o tempo da informação científica não se podia confundir com o tempo da informação política.

O Governo - e muito bem - tomou as decisões que tinha de tomar. Ninguém pode honestamente dizer que há fundamentação científica para a generalidade delas.

O mundo pode chegar à conclusão de que esteve errado ao tomar certas atitudes?

É cedo para fazer esse balanço. Os políticos precisam de fazê-lo rapidamente e tomar atitudes. A ciência precisa de mais tempo. Convém não pedir à ciência aquilo que ela não pode dar. Mas começa a haver alguns sinais de que a informação vinda da China ter-nos-á levado a não considerar aspetos que um conhecimento mais profundo nos faria valorizar.

Como quais?

Aquando do SARS, em 2002, não houve este alarme todo que temos agora. Nos últimos 20 anos, o número de aeroportos da China multiplicou-se por mais de cinco vezes. O número de passageiros internacionais multiplicou-se mais do que essas vezes. Muita gente pensou que a situação seria parecida ao SARS, que ia haver alguma contenção local do problema. E é interessante sermos tão entusiasmados em relação à capacidade de contenção dos países daquela região e não nos perguntarmos porque diabo o vírus cá veio parar.

Houve medidas não tomadas no tempo devido?

É uma pergunta que se pode colocar. A infeção teve menos impacto em Pequim, que é a capital da China, do que em Milão. Se a contenção local tivesse sido feita como se diz que foi, esperávamos um vírus localmente contido.

Uma segunda curva é um cenário certo, por esta hora?

Ao raciocinarmos por analogia, se na China não houve segunda curva, porque haverá na Europa? Mas se me pergunta: ao abrirmos tudo, haverá um novo crescimento da infeção? Seguramente sim. Mas sairmos de casa não é só por si uma fatalidade. Voltando à experiência do VIH, a solução não foi deixar de ter relações sexuais, foi passar a ter relações sexuais com preservativo.

O nosso maior ganho, neste interregno, foi termos aprendido a defender-nos?

Gostaria de ser otimista, mas infelizmente, por exemplo, nos meios de comunicação social, gastamos mais tempo a falar do que não sabemos do que a usá-lo para atividades de caráter pedagógico.

Ainda lê notícias?

Sim. Mas noto os conteúdos opinativos pouco fundamentados. O relevo da opinião dos peritos é desvalorizado porque a opinião científica se deixou tingir por valores e escolhas que não têm nada de técnica. A ninguém interessa a minha opinião sobre construção civil ou sobre desporto motorizado.

A PANDEMIA DE COVID-19 APROFUNDA AS DESIGUALDADES SOCIAIS


Em pouco mais de 4 meses o COVID-19 tornou-se na crise mais rápida de saúde global conhecida até ao momento.

Várias características sistémicas, biológicas, políticas e de saúde pública convergiram para que isso acontecesse: a sua contagiosidade e letalidade populacional, a fragilidade de muitos sistemas de saúde nacionais e uma fraca resposta dos dispositivos de saúde pública mundiais, a globalização do transporte aéreo, a incapacidade para as elites mundiais ouvirem e atuarem perante as advertências que há muito instituições e cientistas iam efetuando.(aqui)(aqui)

Embora ninguém pudesse prever exatamente quando e onde começaria, que país ou que continente seria mais afetado há muito que sabíamos que isto poderia acontecer, não foi por falta de avisos. Da conhecida e repetida citação de Joshua Lederberg “The single biggest threat to man’s continued dominance on the planet is the virus” ao artigo de Bill Gates no The New England Journal of Medicine “The Next Epidemic — Lessons from Ebola” ou ao relatório de Setembro de 2019 da Organização Mundial de Saúde “A world at risk: annual report onglobal preparedness for health emergencies” que previa a ocorrência de epidemias ou pandemias devastadoras que causariam não só perdas de vidas mas também destruiriam as economias e provocariam o caos social“ The world is at acute risk for devastating regional or global disease epidemics or pandemics that only cause loss of life but upend economies and create social chaos”, os avisos estavam aí.

Mas se o vírus se espalhou com uma aparência democrática atingindo de uma forma impensável o mundo rico e as classes sociais privilegiadas, desenganem-se os que pensam que o COVID19 afeta de forma igual toda a população, não ele antes exacerba as desigualdades sociais.

Bastaram algumas semanas para depararmos com alguns estudos ou notícias que já evidenciam a repercussão desigual que a pandemia tem sobre os mais pobres, seja na Índia onde o lockdown tem tido um efeito devastador sobre a economia informal que abrange mais de 85% dos trabalhadores, obrigando milhares de pessoas a abandonarem as grandes cidades e regressarem às suas aldeias sem qualquer meio de subsistência(aqui), seja na cidade de Barcelona, onde os bairros onde se concentra a população de menor rendimento, com piores condições habitacionais, má saúde e uma esperança de vida menor (aqui) ou no Algarve onde a população migrante oriunda da Índia, do Bangladesh, do Paquistão ou do Nepal, a trabalhar na agricultura concentrou uma grande parte das cadeias de transmissão em Faro, Tavira, Armação de Pera ou Albufeira (aqui)(aqui).

Vem tudo isto a propósito do trabalho conduzido pelos investigadores da Escola Nacional de Saúde Pública no âmbito do Barómetro COVID-19, liderado por Carla Nunes, intitulado “Desigualdades, Diferenciação Geográfica, Perceção Social” onde se evidenciam desigualdades na distribuição dos casos de COVID19, verificando-se uma maior número de casos nos municípios com maior desigualdade salarial, maior desemprego, menor rendimento e menor poder de compra.



Terminamos com uma citação do artigo do professor Michael Marmot na revista de Lancet de 2 de maio “Society and the slow burn of inequality”, a propósito da pandemia de COVID19 e o aprofundar as desigualdades sociais.(aqui)


segunda-feira, 27 de abril de 2020

SARS-CoV-2, COVID-19 - NÃO CULPEM O MORCEGO


Vivemos no Antropoceno, a era em que a atividade humana impõe a sua influência sobre o meio ambiente (aqui).

A destruição dos ecossistemas com a chegada dos seres humanos a áreas onde antes a sua presença era insignificante, a sobre-exploração das áreas naturais, as alterações climáticas provocadas pelo consumo dos combustíveis fosseis que libertaram CO2 e outros gases de efeito de estufa suficiente para reter mais calor e levar ao aumento da temperatura de uma forma nunca vista, a poluição das águas, a desflorestação causada pela expansão da agropecuária, o desenvolvimento da indústria agrotóxica e da indústria pecuária e diminuição da biodiversidade são os principais fatores para o aparecimento de novas doenças infeciosas com capacidade para gerarem infeções descontroladas.

Há muito que sabemos que a constante e crescente destruição dos ecossistemas influi na transmissão dos patogénos, fazendo com que os seres humanos entrem em contacto com espécies que nunca tinham contactado e que não tinham evoluído para contactar com pessoas. Sabemos de há muito que populações de morcegos foram obrigadas a deslocarem-se dos seus habitats pelos incêndios e pela deflorestação, foi assim que em 1998 as populações de Pteropus vampyrus provocaram um surto de Nipah na Malásia com uma letalidade de 40%, foi assim que outras espécies de morcegos serviram de intermediários entre outros animais e o homem na Austrália em 1994 com a Hendra, na China e no Canadá em 2003 com a SARS-Cov, no Médio Oriente com a MERS-COV em 2012 ou com o Ébola em 2014 na África Central em 2014.
El Roto 25.04.2020
Então a o vírus SARS-CoV-2, causador da COVID-19 era inesperado?

Não, não culpem o morcego, culpem antes a inação das elites que estão convencidas que o mundo é delas, dos ganhadores dos mais aptos e que os outros os perdedores se não sobrevivem é por sua culpa e porque o merecem. Com esta pandemia sucedeu o impensável o mundo rico e as classes privilegiadas sentiram que não são invulneráveis, mas será isto o suficiente para “outra forma de viver”.

Deixo aqui para reflexão a parte final de um ensaio do filósofo e ensaísta sul-coreano Byung-Chul Han publicado no jornal El País.

“ O vírus não vencerá o capitalismo. A revolução viral não chegará a ocorrer. Nenhum vírus é capaz de fazer a revolução. O vírus isola-nos e individualiza-nos. Não gera nenhum sentimento coletivo forte. De alguma maneira, cada um preocupa-se somente com a sua própria sobrevivência. A solidariedade que consiste em guardar distâncias mútuas não é uma solidariedade que permite sonhar com uma sociedade diferente, mais pacífica, mais justa. Não podemos deixar a revolução nas mãos do vírus. Precisamos acreditar que após o vírus virá uma revolução humana. Somos NÓS, PESSOAS dotadas de RAZÃO, que precisamos repensar e restringir radicalmente o capitalismo destrutivo, e nossa ilimitada e destrutiva mobilidade, para nos salvar, para salvar o clima e nosso belo planeta.”

sábado, 4 de abril de 2020

2020 - ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA - DESIGUALDADES SOCIAIS NO COMBATE AO #COVID19 E AS CONSEQUÊNCIAS PARA OS TRABALHADORES MAIS POBRES

A medida que o #COVID19 se espalha vêm ao de cima as Desigualdades Sociais e os Determinantes Sociais da Saúde Nas cidades dos EUA, muitos trabalhadores de baixos rendimentos continuam a ter que se movimentar para irem trabalhar, enquanto os 10% mais ricos ficaram mais cedo em casa e continuam a movimentar-se menos de acordo com dados de localização de smartphones analisados pelo The New York Times.

FOTO DE METRO EM DIA DE TRABALHO

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

2020 - OS FACTOS CONTRA A DEMAGOGIA E O POPULISMO


Ao longo dos últimos 4 anos procurámos divulgar e dar a conhecer a “causa das causas”, a olhar para além do nosso alcance e não olhar uma só coisa (aqui). A olharmos (sempre) a relação entre as coisas e nós mesmos para melhor conhecermos os determinantes sociais da saúde e as desigualdades em saúde.

Dito isto, vale a pena relembrar a que quem nos leia que não temos uma visão negativa do mundo, antes pelo contrário, procuramos sustentar o nosso trabalho, num olhar centrado nos factos, numa visão construtiva, contrariando as notícias falsas, a ignorância e uma visão conservadora e irracionalista do mundo, que despreza os factos, incitando ao medo irracional, à desconfiança em relação “aos outros” por terem cultura, hábitos, ou religião diferentes, incitando à xenofobia, ao racismo, ao machismo, que constrói um discurso demagógico a partir de visão etnocentrista e anti-sistema, que as redes sociais amplificam, permitindo dizer as maiores barbaridades sem qualquer comprovação, de forma consequente e sem qualquer responsabilização.

Por tudo isto vale a pena dar a conhecer o trabalho da Fundação Gapminder fundada por Hans Roling em 2005 que tem como missão “Fighting devastating ignorance withfact-based worldviews everyone can understand”

Esperança de Vida à Nascença/Produto Interno Bruto ajustado pelas diferenças do poder de compra


Mortalidade Infantil aos 5 anos

domingo, 22 de dezembro de 2019

2019 - NATAL DOS SIMPLES E DOS ANDARILHOS DESTE MUNDO


Jorge de Sena  - Natal de 1971




"Operários do Natal" - Carlos Mendes, Fernando Tordo e Paulo de Carvalho álbum LP 1978 Textos de Ary dos Santos e Joaquim Pessoa. Músicas e vozes de Carlos Mendes, Fernando Tordo e Paulo de Carvalho. Narrativa: Maria Helena D'Eça Leal. Arranjos de orquestra: Joaquim Luís Gomes e José Luís Simões.